Tam. da fonte

Psicanálise

Narcisismo e consumo

 QUANDO MÃES E FILHAS VÃO ÀS COMPRAS

Uma breve reflexão sobre narcisismo e consumo.

 Cláudia Sampaio Barral

São Paulo 2013

 

‘Concentrada está a sua alma’, diz Wilhelm Busch a respeito do homem que sofre de dor de dentes, ‘no estreito orifício do molar’.

Freud, in Sobre o Narcisismo: Uma introdução.

 Na introdução deste trabalho é preciso considerar que “o narcisismo é um operador universal do psiquismo humano, um estruturante da subjetividade e da própria cultura, como também é o Édipo” (Dudovich, 1990). Nesse sentido, é preciso tomar cuidado para não patologizar o conceito de narcisismo, ou transformar o narciso em adjetivo, justamente para poder compreender, então, as suas patologias. Na contemporaneidade, o sujeito que não consegue realizar transferências libidinais para objetos, que se defende do ambiente hostil mediante um fechamento em si, consumido por um “amor” esvaziado, pode ser exemplo do que se chama patologia narcísica.   

O consumismo e o individualismo promovidos pelo capitalismo não dão conta de conter ou de preencher os vazios que assolam a alma humana. A preocupação narcisista com o eu oferece um apoio enganador: baseadas na ideia de que o ter suplanta o ser, as pessoas se entregam a uma rotina de trabalho e de consumo desenfreados, perdendo tantas vezes o sentido maior do trabalho, da produção, da realização.

O capitalismo gera um consumo exacerbado. A sociedade se entrega à lógica que interliga o poder à posse de objetos de consumo, que têm, por sua vez, prazo de validade estabelecido, que demandam trocas e substituições cada vez mais rápidas. Essa é a dinâmica que exacerba o individualismo, que extrai das causas coletivas o seu poder de atrair libido. O indivíduo excessivamente preocupado com o poder de consumo e ascensão social, sem condições de investir nas relações interpessoais, com uma libido concentrada em seu próprio ego, é um indivíduo em estado regredido de funcionamento narcísico.

O sujeito contemporâneo passou da busca da satisfação para a busca do prazer, e isso tem implicações significantes. O conceito de felicidade também vem sofrendo alterações e isso influencia a forma como as pessoas consomem. O consumo deixa de ser meio de expressão e se torna ferramenta de um eu superinvestido.

Na visão psicanalítica, o narcisismo que ocorre na infância é considerado como primário. Nesse primeiro momento, há um autoerotismo em que a energia libidinal estaria concentrada no ego, servindo de proteção e de fonte de fantasias. Essa etapa é indispensável para o desenvolvimento humano e não pode ser caracterizada como uma patologia. Com o desenvolvimento, essa energia libidinal ligada ao ego deve se deslocar para os objetos, ou seja, o ego narcísico deve transferir para o outro o seu desejo e a sua satisfação. Para que haja um equilíbrio psíquico, é necessário um balanceamento energético entre os investimentos no eu e nos demais objetos.

Na sociedade de consumo, há uma regressão: o narcisismo não está ligado ao outro, do mundo exterior, a libido é redirecionada ao eu. Outras características marcantes desse narcisismo são: valorização da autorealização, egocentrismo, eficiência, particularismo, hedonismo, busca por viver intensamente o presente, sedução e criatividade, fascínio pelo espetáculo e busca por novas realizações (Santi, 2008). O outro se torna, apenas, um instrumento de confirmação do próprio eu. Surgem sentimentos de desprezo e apatia em relação ao coletivo. Freud nos lembra de que a transferência de catexia libidinal do ego para os objetos externos é importante para a saúde mental. O equilíbrio do aparelho psíquico demanda essas transferências, a fim de não sobrecarregar o ego. É preciso, em última instância, amar para não adoecer.

É importante ressaltar que esse narcisismo regredido acontece como forma de proteção do ego. A sociedade que não permite que o sujeito se desenvolva de forma saudável, que o impele à competição cruel e, tantas vezes, injusta, o coloca nessa posição individualista, na qual sentimentos de impotência e desamparo, desorientação e ansiedade, demandam que o narcisismo entre em cena para que não haja tanta solidão e desamparo. “O indivíduo moderno é um indivíduo violentado, antes de ser narcisista.” (Lasch apud Santi: 2008).

Não podemos pensar que a relação mãe e filha estaria imune às circunstâncias que influenciam toda a sociedade ocidental capitalista. Também as mães sofrem com as demandas impostas pela sociedade em que vivem e, diante de tantas exigências no campo profissional, social e familiar, elas também sucumbem, se tornando mães narcísicas. O narcisismo comum, saudável, que os filhos possibilitam que floresça nos pais, pode estar sofrendo trepidações, desequilíbrios.

Através da publicidade, pode-se observar acuradamente os apelos narcísicos que a maternidade tem sofrido. Vale ressaltar que a publicidade, desde há muito, serve mais para anunciar um modo de vida do que o produto propriamente dito. É o gozo sem fim que está sendo vendido, o prazer instantâneo.  

Observemos, portanto, o slogan de uma loja infantil: “Quando crescer quero ser igual a você”. Quando a criança sai do estado de indiferenciação e é capaz de fazer escolhas objetais, é comum que tome a mãe por objeto. No primeiro momento, ainda está extremamente confundida com essa mãe, depois, percebe que a mãe existe fora dela, que é um objeto não eu e, a partir desse momento, a criança irá investir contra a mãe, para destruí-la e restaurá-la muitas vezes. É preciso que a mãe suporte e sobreviva a esse processo. O pano de fundo da infância da menina que tem uma mãe suficientemente boa é, de fato, bem ilustrado no slogan da loja: a menina deseja ser como a mãe, porque a ama. A mãe, por sua vez, precisa saber receber, conter, suportar e devolver esse amor.  A mãe precisa desejar, sem se tornar objeto de desejo, consciente de que se oferece como modelo.   É natural que a criança se espelhe nos adultos que a cercam, que queira imitá-los. A criança pequena coloca a bolsa da mãe nos ombros, dirige-se para a porta e diz “tchau”, ou recolhe os papéis de cima da mesa, ou limpa e varre a casa. Posteriormente, essa mesma criança vai brincar de casinha, de médico, de polícia e ladrão, de forma mais elaborada. Brincando dessa forma, ela treina os papéis que irá desempenhar no futuro. Mas o que acontece, então, quando a mãe, de fato, compra uma roupa para a filhinha que é igual à sua?

 

No dia das mães do ano de 2013, a loja de cosméticos O Boticário criou uma fragrância e lançou a campanha publicitária ilustrada acima. Mãe e filha teriam perfumes semelhantes, nas versões adulta e infantil. A mãe que cede a esse apelo de consumo e compra perfumes, ou roupas, semelhantes às suas para a sua filha, não estaria roubando da menina o direito de se descobrir, por si só, no universo feminino que a mãe representa?  Ao invés de brincar de ser a mãe, a menina ganha um perfume igual ao de sua mãe; a realidade captura a fantasia de forma castrante, perigosa até. A criança perde a oportunidade de reproduzir dentro de seu próprio universo de objetos o correspondente do mundo dos adultos. O individualismo entra em cena quando é negada à criança a possibilidade de dividir ludicamente com a mãe os objetos de desejo que pertencem a esta, mediante a mensagem subliminar de que cada uma deve possuir o seu. O ponto de interseção entre as duas deixa de ser a fantasia e passa a ser o consumo, o produto comprado, e não o sonhado.  O narcisismo materno se alimenta diante da possibilidade de que a criança seja, de fato, uma miniatura de seu eu.

Em campanhas publicitárias que incentivam que mães e filhas se vistam da mesma forma, com a mesma estampa ou modelo de roupa, essa sensação de ser humano em miniatura, uma cópia fiel da que a mãe é, ou foi, fica ainda mais evidente. 

A tarefa de ser mãe, para algumas mulheres, tem sério apelo egóico. O bebê há de ser, para a mãe, o falo que lhe falta. A maternidade representa, para a mulher, a possibilidade de superar o seu próprio complexo de castração. O processo de fusão entre mãe e filho(a) precisa ser interrompido, no entanto, para que a mãe possa estabelecer outros objetos de desejo e pra que a criança possa crescer, possa deixar de ser filho(a). Quando a menina torna-se a mãe em miniatura, este pode ser um sinal de que o processo fusional está se perpetuando.

Outra questão que se apresenta é que, em tempos de consumo desenfreado, a criança se torna muitas vezes um objeto de exibição.  Ter um filho torna-se mais uma tarefa a ser cumprida, numa agenda cheia de atividades. O lugar de “sua majestade, o bebê” pode estar sendo comprometido, de alguma forma, pela imposição de uma mãe majestosa, da mulher superpoderosa. 

Na sociedade das obrigações e imposições, quando muitas vezes as próprias mães se sentem sufocadas, a preocupação de ser boa mãe e de exibir esse atributo parece fazer com que as próprias crianças sejam desconsideradas. A verdade é que a maioria das mulheres se tornam mães amorosas, cuidadosas, que possibilitam aos seus filhos um desenvolvimento sadio, mas não se pode desconsiderar que o atual volume de informações e estímulos disponíveis é tão vasto que algumas mulheres se tornam ansiosas por saberem como ser boas mães a ponto de esquecer que, no fundo, o fundamental para se criar uma criança é o afeto, acima de tudo.

 Referências Bibliográficas

 FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução, 1914. In: A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 75-109. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14).

 SANTI, P. Consumo e desejo na cultura do narcisismo. Comunicação, Mídia e Consumo, Brasil, v. 2, n. 5, 2008.

Disponivelemhttp://www.revistas.univerciencia.org/index.php/comunicacaomidiaeconsumo/article/view/5077/4693. Acessado em 13 out. 2013.

 DUVIDOVICH, E. Narcisismo – uma patologia do nosso tempo. (Terceiro Encontro do Reich no Sedes em 15/09/1990)  

O corpo desabitado

O CORPO DESABITADO: Um caso de bulimia

(c) Maria Cristina Vargas Lemos (2003)

 

RESUMO:  A autora apresenta o caso clínico de uma paciente que sofre de bulimia com a intenção de mostrar como a integração psique-soma é essencial para que o processo que Winnicott chama de personalização seja alcançado. Posteriormente, a dissociação do psique-soma poderá ser usada como uma defesa frente a angústias de caráter narcísico. Angústias que surgem da percepção da necessidade do outro para a satisfação pulsional.

             Palavras-chave: Integração, dissociação, personalização, necessidades,             dependência,  bulimia.

 

ABSTRACT: The author presents the study case of a bulimic patient to illustrate how the integration of psyche and soma is essential to achieving the process that Winnicott called of personalization. Eventually, the dissociation of psyche and soma could be used as a defense when facing narcissist anxieties. Anxieties that arise from the perception that to achieve satisfaction an object is necessary.

 

Key words: Integration, dissociation, personalization, needs, dependence, Bulimia.   

 

 

 

INTRODUÇÃO       

Os padrões estéticos vigentes impõem ideais de magreza cada dia mais extremos. Basta olharmos para as modelos, meninas às vezes com apenas treze anos de idade, que surgem nas passarelas como espigas de trigo: altas, magras e loiras. Figuras com um certo ar de distanciamento, que se movimentam como se não estivessem sujeitas às leis da física e da biologia, quase como se fossem seres etéreos.  É este o ideal que as crianças começam a perseguir desde muito cedo para, segundo elas, serem parte da turma e assim serem amadas.

O objetivo é o de alcançar esta aparência custe o que custar, como se a aparência em si, constituísse a garantia de ser amada, bem sucedida etc. Entretanto, é justamente a aparência que denuncia uma falha na constituição do Ser. Parecer substitui Ser.  Não causa surpresa que uma das patologias que atinge um número cada vez maior de meninas seja a anorexia/bulimia, uma vez que esta põe em destaque o corpo e a feminilidade como elementos de estranheza. É difícil imaginar que alguém possa ficar alheio frente a uma paciente anoréxica/bulímica.  O sofrimento está estampado no rosto e no corpo. A sua magreza é agressiva e ao mesmo tempo exibida com um certo ar de triunfo, não por terem alcançado o “peso ideal”, e sim por terem as necessidades e desejos sob um suposto controle.

Extensas são a literatura e as pesquisas sobre este mal que assombra as mulheres de nosso tempo. Diferentes são as propostas de tratamento e, no caso da anorexia, em especial, muito freqüentemente, fracassadas. 

O conhecimento deste distúrbio data de tempos muito antigos. Hipócrates e Galeno fazem menção a esta doença. Sabemos, também, como Teresa de Ávila utilizava um galho de oliveira para provocar o vômito. No século XIX Lasègue e Gull dedicaram parte dos seus estudos a este tema e as fotografias de K. R. em “Notas Clínicas” os registraram. Posteriormente, tanto a literatura psiquiátrica como a psicanalítica relataram casos de anorexia e bulimia.  Porém até recentemente se tratava, sempre, de casos isolados. Foi só a partir do fim dos anos 60, e principalmente nos anos 70, que houve indícios de um aumento considerável da incidência desses padecimentos e que se começou a falar em “epidemia”.

Há, sem dúvida, algo atual que caracteriza estes padecimentos. Como bem nos lembra BLEICHMAR (2000), se no caso das santas havia uma questão mística e religiosa envolvida, pois o objetivo era a flagelação do corpo como uma maneira de alcançar a iluminação, hoje em dia podemos pensar que as pré-adolescentes têm um duplo desafio no que diz respeito à sexualidade: por um lado, elas têm que dar conta das demandas pulsionais, algo  que é intrinsecamente gerador de conflitos e lutas internas e subjetivas. Por outro a menina adolescente passa a viver o corpo e a imagem feminina como imperativos e tiranos impostos de fora, forçando-a a dar conta de uma demanda constante, pois a mulher, ou melhor dizendo, o corpo feminino, tem se tornado objeto do olhar do outro. Assim a mulher espetáculo, a mulher na mídia e o corpo desnudo são sedutores e desejáveis e ao mesmo tempo assustadores, pois engendram neles mesmos a ameaça da violência pulsional. Em decorrência, as jovens vivem o impasse entre o enorme desejo de alcançar esses padrões femininos e, simultaneamente, a angústia de viverem os perigos e ameaças à integridade corporal, quase concretizada pela menarca. 

As instituições de saúde pública se viram obrigadas a reconhecer a existência deste problema e têm oferecido diferentes alternativas para o tratamento destas pacientes.

Na área de pesquisa tem surgido vários grupos que tentam responder as indagações que tanto a anorexia como a bulimia fazem surgir. Um desses grupos é o CEPPAN (Centro de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia) do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae que atende pacientes anoréxicas/bulímicas. Ali tem sido possível constatar que uma das questões, normalmente, trazidas pelas pacientes diz respeito à distorção da imagem ou total falta de referência ao corporal. Não raro, as falas se reduzem a relatos sobre calorias, do quanto foi ingerido para depois ser evacuado mediante laxantes ou descrição dos vômitos etc. Meninas que pesam por volta de 30Kg dizem se sentirem gordas. O corpo não condiz com a sensação.

 

 

O que proponho nesta exposição é mostrar que para que o corpo seja experimentado como um meio no qual possamos sonhar os próprios sonhos, ter sentimentos, desenvolver a identidade sexual e vir a ter relacionamentos é necessário que a integração psique-soma seja alcançada. Algo que só pode acontecer se houver um ambiente que se adapte ativamente às necessidades do bebê.  A integração psique-soma possibilita o processo de personalização, que WINNICOTT (1963) define da seguinte maneira: “Personalização é uma palavra que pode ser empregada para descrever a conquista de uma relação íntima entre a psique e o corpo” (p. 201). Ou seja, a personalização diz respeito à experiência de habitar o próprio corpo e de estar em conexão íntima com aquilo que se experimenta. É esta função de integração psique-soma que muitas vezes se revela através de somatizações e que é buscada, pelo paciente, na relação analítica.  Algumas vezes ocorreu-me, durante o atendimento a uma paciente bulímica cujo caso irei relatar, que a bulimia na paciente tinha o sentido dela obter, junto comigo, um outro jeito de conviver consigo mesma e com o seu corpo. Isto é, como uma busca pela personalização.  No entanto, o meu convívio com ela foi revelando, para mim, aspectos que diziam respeito mais do uso de uma dissociação da integração psique-soma como um modo de se proteger de um objeto sentido como invasivo do qual precisava se manter distante. 

A minha suposição é a de que uma alternativa para a transicionalidade e para encontrar o não-eu é o narcisismo. GREEN (1979) discute esta questão quando aponta:

 

 O objeto é um entroncamento. Ele é a procura dos desejos do Id na falta de objeto para satisfazê-lo, portanto, gerador de tensões libidinais, necessariamente contraditórias, de amor e de ódio. É parte do mundo externo, pois é justamente lá, fora do sujeito, que o objeto encontra-se situado. Winnicott nos ensinou como a função do objeto transicional supera parcialmente esta dupla fonte de tensões. Mas conhecemos ainda uma outra solução para resolver este problema: o narcisismo. 

Pelo investimento libidinal do Eu, o Eu se dá a possibilidade de encontrar nele mesmo um objeto de amor, constituído segundo o modelo de objeto, suscetível, graças aos recursos do auto-erotismo, de obter a satisfação pulsional procurada (p.159).

 

Nesse sentido, poderíamos pensar que, quando a paciente se depara com angústias de caráter narcísico, decorrentes da percepção da dependência do outro para a satisfação pulsional, ela recorre à dissociação do psique-soma para se proteger e preservar sua esfera narcísica. O corpo, nesta dissociação, não é mais o lugar de experiências íntimas consigo mesma e sim passa a ser o lugar de uma materialidade concreta, coisa em si, que não permite nem trocas, nem relação com uma outra área de experiência vivida.  Ao contrário, ele fica sendo o lugar de onde a experiência tem que ser expulsa, o que às vezes se revela de forma concreta através dos vômitos. Uma outra questão é que desta forma a paciente parece se libertar da dependência em relação ao outro, enquanto o corpo passa a ser um lugar de exílio tratado como coisa em si, seja por conceitos médicos, biológicos ou psicológicos. 

Não pretendo, entretanto, simplificar ou reduzir a bulimia desta paciente à falha da integração psique-soma. Tento apenas abordar um aspecto que, desde o início de nosso trabalho, ocupou grande parte de nossos encontros.

 

 

HISTÓRICO

Brenda estava com 19 anos quando foi encaminhada por uma instituição de saúde pública onde fazia tratamento ambulatorial.

É a filha mais velha tendo um irmão quatro anos mais novo, filho do segundo casamento do pai e primeiro da mãe. Atualmente está fazendo cursinho pela terceira vez, pois pretende uma vaga em alguma faculdade pública.  A mãe é sentida pela paciente como alguém que se esforça para ser uma boa mãe e também uma boa esposa, porém aos olhos de Brenda, ela é incapaz de ser uma coisa e outra. O pai está doente. Brenda diz ser muito parecida com ele, já que ambos valorizam as discussões intelectuais, são de temperamento forte, perfeccionistas e não têm paciência com as pessoas. Isto faz com que tenham muitas e violentas brigas. Entretanto, ela lembra ter vivido momentos de muita afetividade, carinho e proximidade com ele na infância.

Quanto à origem ou desenvolvimento da bulimia, a paciente não é clara.  Foram vários os relatos, porém não se sabe como nem quando começou.  Algo que se repete quando ela fala da doença do pai.  Não se sabe o que ele tem, nem como começou.  Ele se trata no HC e “lá os médicos nunca falam claramente”.

O que ela lembra é do alívio experimentado quando uma dermatologista disse-lhe que o seu problema de pele era apenas parte de um problema maior e a encaminhou para ser atendida numa instituição. Foi um alívio, pois finalmente alguém tinha olhado para ela e notado que algo estava errado. Além do mais, encontrar meninas que falavam do que ela sentia e saber que isso tinha um nome, lhe permitiu sentir que tinha uma identidade, pois “tinha gente como ela”.

 

MATERIAL CLÍNICO

 

No início do nosso trabalho Brenda se “apresentou” como bulímica e, ao longo das primeiras sessões, relatava todo o conhecimento sobre a doença, desde o ponto de vista médico, biológico ou psicológico, “adquirido” após ter entrado em contato com a instituição de saúde pública. Mais do que relatos, pareciam exposições de um especialista no assunto. Era como se a identidade bulímica lhe fornecesse uma “fachada” atrás da qual ela pudesse se proteger. Ela vinha às sessões apenas para confirmar o seu diagnóstico.

Passado o primeiro momento, a paciente chorava muito e se dizia muito deprimida. As sessões tinham, agora, mais o tom de um lamento e giravam, normalmente, em torno de uma série de queixas envolvendo o corpo:

... Estava no cursinho e sabia a resposta, só que se eu levantasse a mão, iam olhar para mim, aí o meu braço começou a ficar enorme, tudo começou a incomodar, estava sentindo até a minha bochecha vibrar, eu não estava aguentando, queria de repente desaparecer, eu precisava sair de lá, eu queria ser como uma bexiga que murcha e desaparece.

 

... Estava no Hospital, e lá tem aquelas garotas anoréxicas, e a gente fica no corredor onde passam outras pessoas, que não têm nada a ver. Elas olham para as meninas esqueléticas e olham com cara de horror. Eu sei que é porque estão muito magras, mas olho para elas e eu não vejo nada de mais.

 

Ouvindo a paciente comecei a perceber que o seu corpo era sentido como uma coisa em si. Curiosamente, embora aparentasse se tratar de um super-investimento do corpo, sendo ele o tema constante nas conversas, o foco permanente de cuidados, preocupações e atenções, na verdade, mais parecia que por trás desta cortina de fumaça encontrava-se um corpo desinvestido. Como se alguém falasse de estar preso num corpo desabitado e tendo que lidar, apenas com a concretude do peso, do contorno, das necessidades fisiológicas etc. O corpo sendo sentido como um estorvo que atrapalha o encontro com o outro. Só restava lamentar o infortúnio de não ser etéreo. 

As falas da paciente me lembraram de Aguilulfo personagem criado por CALVINO (1959) no seu romance “O Cavaleiro Inexistente”: uma armadura branca que não é maculada pelos horrores da guerra, pelas paixões do amor, mas que consegue cumprir tarefas “burocráticas” perfeitamente. Ele causa uma forte impressão por onde passa, porém não pode se relacionar verdadeiramente com ninguém.

Comecei então a procurar por modelos teóricos que me ajudassem a compreender o que estava se passando com a paciente. A minha hipótese, naquele momento, era de que a falha da qual teríamos que cuidar dizia respeito a processos muito primitivos que poderiam ter impedido que a integração somático-psíquica fosse alcançada. O conceito de personalização de WINNICOTT (1963) preconiza a conquista de uma relação íntima entre psique e soma, a partir da adaptação do ambiente às necessidades do bebê. Esta relação íntima entre as vivências corporais e a experiência emocional promove o sentimento de habitar-se o próprio corpo sendo este o lugar privilegiado da experiência de encontro consigo mesmo, onde os sentimentos podem ser sentidos como próprios, dando origem ao que mais tardiamente pode ser chamado de subjetividade. A adaptação do ambiente permite que as vivências somáticas possam ser expressas e que as tensões instintivas sejam vividas como não ameaçadoras. Estas experiências propiciam que o corpo comece a ser um lugar onde existir. A partir da existência ele passará a ser sentido como tendo limites e, portanto, um interior dentro do qual é possível ter experiências de intimidade consigo mesmo. WINNICOTT (1949), entre outros autores, enfatiza a importância da adaptação ativa da mãe-ambiente às necessidades do bebê para que os processos de maturação sejam alcançados. Dita adaptação só é possível graças à capacidade da mãe-ambiente de se identificar com o bebê, o que permite que a distância entre o Eu e o objeto seja eliminada. Mãe e bebê vivem a ilusão de serem Um.

Foram necessários alguns meses de trabalho para que eu pudesse encontrar um “jeito” de ouvir e falar, ou seja, de conseguir um certo nível de adaptação com  Brenda. Nesses primeiros meses, em que a paciente vinha às sessões bastante retraída, as minhas intervenções podiam fazer com que ela saísse do retraimento, ou pelo contrário, provocavam reações de fúria e aumentavam a sensação de distanciamento. Aos poucos foi possível estabelecer uma certa sintonia que permitiu que algum grau de confiança entre nós duas fosse alcançado e, paulatinamente, uma relação entre o estado emocional e o corpo começasse a se desenvolver. 

...Sabe que me dei conta no cursinho? Que eu estava me sentindo bem e que não estava ligando para o que aquelas meninas iam pensar da minha roupa ou meu cabelo, ou se estou gorda ou não. Tudo porque estava me sentindo bem.

 

Essa fala parece revelar uma sensação interior de bem-estar que permite que o corpo não seja sentido como o todo, porém aponta para um incômodo em relação aos outros.  Incômodo que foi se evidenciando na relação transferencial.  Atendê-la não era mais suficiente, ao contrário, Brenda expressava a necessidade de se defender de mim. Eu começava a ser sentida como uma ameaça. Comecei a me perguntar: ameaça de que? A resposta não tardou em chegar.

Um dia Brenda chegou uns minutos atrasada e disse: “Estava com medo de não chegar e vinha correndo, quando me dei conta de quanto queria vir...” A partir desse dia começou a faltar às sessões e a manifestar a angústia de se perceber interessada pelo outro e por mim também, pois isso faz desse outro, alguém muito poderoso e não confiável. Algumas vezes interpretei a sua angústia de caráter narcísico, o que produzia raiva e uma sensação de não ter saída. O que mais chamou a minha atenção foi o fato de parecer que tínhamos voltado à estaca zero. A paciente falava, novamente, unicamente de vômitos, de ter um total desconhecimento de qual era a verdadeira imagem corporal, etc. A minha sensação era a de ter perdido a paciente. Comecei a pensar que a função desse “retorno”, ou seja, dessa dissociação entre psique e soma podia ser, como a paciente tinha apontado, para se defender de se perceber ligada a alguém e, principalmente, de ter percebido a dependência desse alguém para a satisfação pulsional. A dissociação tinha como objetivo a delimitação de áreas de experiência da paciente que permaneciam isoladas umas das outras para, desta forma, evitar a angústia que era imaginada como intolerável.   

Suponho que como resultado das minhas tentativas de adaptação à paciente, eu possa, por momentos, ter funcionado como um objeto da necessidade, fusionada de tal modo que a separação entre o Eu e o objeto não ficasse evidente. Entretanto, as falhas, inerentes ao cuidado, foram permitindo uma certa distância entre Brenda e eu, o que, por sua vez, passou a ser insuportável para ela.  O que fazer para que a separação, própria da nossa existência, possa ser tolerável? Não apenas tolerável, mas fonte de individualidade e de possibilidades de crescimento? Sou da opinião de que o conceito de transicionalidade cunhado por WINNICOTT (1971) nos oferece uma valiosa alternativa para este impasse. Segundo esta elaboração é necessária a criação de um espaço intermediário onde o eu e o não-eu (objeto) possam coexistir separadamente, porém paradoxalmente juntos. Neste espaço o trânsito entre as diferentes áreas internas do indivíduo e entre estas e o mundo externo é possível, sem que ele se torne uma vivência persecutória. Este espaço pertence tanto ao mundo interno do paciente como ao mundo externo. E é nele que as vivências do indivíduo podem se transformar em experiências reais que o enriquecem e lhe permitem fortalecer sua confiança em relação ao mundo e aos outros.

Nas próprias palavras de WINNICOTT (1971)

... A terceira parte da vida de um ser humano, parte que não podemos ignorar, constitui uma área intermediária de experimentação, para a qual contribuem tanto a realidade interna quanto a vida externa. Trata-se de uma área que não é disputada, porque nenhuma reivindicação é feita em seu nome, exceto que ela exista como lugar de repouso para o indivíduo empenhado na perpétua tarefa humana de manter as realidades interna e externa separadas ainda que inter-relacionadas (p.15)  .

 

No caso da paciente, acredito que o que estava em evidência era a alternativa remanescente para a impossibilidade de viver a transicionalidade, ou seja, o narcisismo, que é uma maneira de se defender da constatação da dependência do objeto para a satisfação pulsional. Como GREEN (1979) sublinha:

 

“... a visão ideal do Eu -de um Eu Ideal acima dos tormentos pulsionais e não dependente do objeto-  é rompida pelo desejo objetal. O objeto pode faltar e a sua falta pode fazer estragos na frágil organização do Eu. Requerendo que fortes defesas sejam erigidas contra o objeto que é  uma fonte dupla de tensões. O objeto é a procura dos desejos do Id na falta de objeto para satisfazê-lo, portanto, gerador de tensões libidinais, necessariamente contraditórias, de amor e ódio. E, ao mesmo tempo, é parte do mundo externo, pois é justamente lá, fora do sujeito, que o objeto se encontra situado.

O objeto se constitui numa ameaça para o Eu porque ele não está à disposição do Eu, ele é aleatório, muda de estado, de humor, além de muitas outras variáveis. Isto acaba forçando o Eu a realizar um enorme trabalho de ajustamento.  O que torna o objeto ao mesmo tempo desejado e rejeitado, amado e odiado. Em suma, o objeto expõe o Eu ao desamparo, tanto do ponto de vista pulsional como em relação ao objeto externo (p. 159).

 

Estas idéias ajudaram-me a formular uma nova hipótese sobre a utilização que a paciente fazia da dissociação psique-soma. Quando ela vivenciava o corpo como a sede dos seus desejos, ou seja, como fonte da vida pulsional, se deparava com a dependência do objeto para a sua satisfação. Dependência  sentida como ameaçadora, dadas as características intrínsecas do objeto.  Talvez a falta de holding a tenha exposto a uma pulsionalidade persecutória não introjetada. 

Pareceria que, segundo a concepção da paciente, nas relações há, apenas, uma possibilidade: aquele que ama e manifesta o seu desejo, fatalmente, ficará submetido a um objeto cruel e “superior”, superior por estar acima de qualquer necessidade pulsional. Então perceber-se  tendo desejos representa uma ameaça, pois significa ficar submetido a esse objeto. A maneira que a paciente encontrou de proteger a sua própria existência de um objeto sentido por ela como tão perigoso foi, na minha apreciação, a dissociação psique-soma. Na dissociação, a experiência emocional é expulsa do corpo como uma forma de se purificar, de se libertar da dependência desse objeto cruel e totalitário. Por vezes, Brenda falava de se sentir suja e ser nojenta por estar interessada em alguém. E nesse contexto o uso dos vômitos era uma maneira de se livrar desses sentimentos. No início dos episódios bulímicos, este objetivo parecia ser parcialmente alcançado. De acordo com a paciente, ela sentia que “realmente ficava mais limpa ou pura depois de ter posto para fora tudo o que estava dentro”. Tendo se esvaziado da experiência emocional o corpo se constitui, novamente, na coisa em si: desprovido de necessidades e desejos, o objeto é dispensável e a “ilusão” narcísica de não depender é recuperada.

... Fui numa festa e no começo eu não sabia se queria estar lá ou não. Tinha monte de meninos legais. E quando entramos olhei para um que achei bonito, e ele olhou também. Já fiquei empolgada. A gente dançou e acabou ficando. A ‘X’ ficou com o amigo e na hora de ir embora eles pediram o telefone. Eu fiquei muito empolgada. Só que o da ‘X’ ligou e o meu não. Eu não sei o que tem de errado comigo, me sinto nojenta, uma idiota, gorda, balofa, aí ontem já vomitei um monte de vezes. Não quero mais saber de me empolgar. 

 

... Foi muito bom com X, a gente estava muito junto e foi muito legal. Só que depois eu fico esperando que ele faça alguma coisa, que ele se manifeste. E fica quieto. Aí eu fico louca, me dá raiva. Não é como eu quero. Me lembro desses momentos, um tempo atrás, em que eu ficava estudando sozinha e ficava ouvindo música, não me incomodava com ninguém, sabe que nem sei se toda aquela coisa de vomitar era tão ruim. Eu sei que estava mais tranqüila, não tinha todo esse trabalho. Agora, eu não quero mais vomitar e tomar remédio e tudo isso, mas, era mais fácil.

 

Apresento agora parte de uma sessão com ajuda da qual acredito poder explicitar as idéias apresentadas.

B: ... Estou irritada porque sabe aquela imagem que eu fazia da modelo que é alta, magra e é perfeita? Era como se nesse mundo eu fosse parte de pessoas diferentes. Mas não diferente ruim.  Eu falava que eu me sentia gorda e feia e fazia tudo aquilo com o meu corpo, mas, na verdade, eu me sentia especial. Eu não falava isso, mas eu achava que eu era diferente e por ser diferente todo mundo me notava. Agora, eu não faço mais: vomitar, comer... mas sinto que sou, apenas, mais uma. E o pior é que vejo ao me redor e vejo que tem muitas pessoas bonitas e eu sou mais uma.

 

T: Você abandonou um mundo ideal de modelos perfeitas e encarnou num corpo real.

 

 B: Mas isso dá raiva e não resolve. Não adianta que seja real, para mim, não interessa. Fico com vontade de ir para casa. Era mais interessante eu me sentir especial mesmo que fazia tudo isso com o meu corpo.

 

T: Você está falando que tinha um mundo por você imaginado onde você se sentia protegida e que ter perdido esse mundo deixa você sem proteção e, portanto, vulnerável.

 

B: É que ontem me expus demais com o X. A gente estava na sala de aula, e estava escuro porque estávamos assistindo a um filme. E eu perguntei para ele:  sou chata?  e ele falou:  você é chata. Sou muito chata?  Sim, insuportavelmente chata  Aí, fiquei bem pertinho dele e lhe disse: em breve você vai gostar insuportavelmente desta chata  [Neste momento Brenda está muito à vontade, rindo alto e se deliciando com o seu relato, eu não falo imediatamente].

Só que aí surge essa hostilidade, porque hoje a gente ficou lado a lado e ele não fez nada. Eu esperava que ele fizesse alguma coisa. Mas como não fez eu começo a me sentir mal, quero ir para casa, vou vomitar e volta tudo de novo.

 

T: Talvez você tenha sentido meu silêncio longo demais e aí você sentiu que ficou exposta, recorrer ao corpo tira você dessa sensação e recupera a sensação de proteção.

 

B:  Mas isso no geral. Porque estava sem vomitar há mais de duas semanas e estava me sentindo eu mesma, e em paz. Sem a pressão toda de estar magra ou gorda.  Mas, depois do cursinho, cheguei em casa e estava de novo essa loucura.   Eu queria muito saber o que se passa dentro dele.

 

T: Para saber se pode confiar?

 

B: Escrevi uma carta para ele, e achei muito corajosa. Até acreditando que vai dar certo. Eu não sei.

 

A paciente inicia falando dos benefícios que o “mundo imaginado” lhe proporciona. Nesse mundo ela tem um lugar garantido e um certo distanciamento dos outros. Ela é alta, magra e perfeita. Ela não sofre as turbulências emocionais que os outros sofrem. Isto a torna especial.  Só que ela tem se descoberto interessada e ligada, tanto à terapia como ao ‘X’, o que faz com que a sua proteção não seja “eficiente” e se sinta vulnerável. Esse mundo imaginado não se constitui num objeto subjetivo pois, segundo ela relata, não propicia a experiência de Ser, ao contrário, gera ansiedade e faz que ela viva a dissociação no corpo.

Quando interpreto o seu narcisismo ela reage com raiva e fala na vontade de ir embora.  Eu aponto a vulnerabilidade que perder essa idéia protetora lhe oferece e ela fica muito à vontade para se “expor”. Nesses momentos ela se manifesta expansiva e vitalizada. Só que o meu silêncio faz que ela sinta hostilidade, talvez por eu me tornar um objeto separado e não ser continuação dela.

Este movimento me leva a pensar na necessidade de criarmos um espaço intermediário entre nós duas que permita que o objeto não seja sentido como, apenas, pertencendo à realidade externa. Um objeto que por ser intermediário não seja nem ela, nem eu, que nos permita estarmos juntas e, o mais importante, que possa não ser tão ameaçador.  

 

O processo terapêutico foi interrompido alguns meses depois da sessão acima apresentada, pois felizmente, a paciente conseguiu a tão desejada vaga para a faculdade, porém, no interior do Estado. Foi, talvez, o fato de poder perceber e aceitar que ela desejava muito fazer faculdade que tenha lhe permitido se empenhar e ir até o fim na busca de conseguir uma vaga. Nos dois anos anteriores, ela tinha prestado e passado na primeira fase dos principais vestibulares, entretanto, “algo” a tinha impedido de seguir em frente e prestar a segunda fase.

 

 

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Violencia e saúde

Violência e saúde: uma perspectiva psicanalítica

(c) Roberto Guido Girola

 

A Roberto e Guido, meus irmãos ceifados

ainda crianças pela violência nazista,

cujo nome carrego como símbolo da

Fênix que renasce das cinzas do ódio.

 

Resumo

O artigo investiga o fenômeno da violência em suas manifestações individuais e coletivas e sua relação com as características constitutivas do psiquismo humano. Uma vez destacados os funcionamentos psíquicos e ideológicos que levam ao ocultamento da violência,  o autor analisa como o fenômeno é abordado por Freud na carta dirigida a Einstein. Nela Freud analisa a inevitabilidade da violência uma vez que se estabelece o estado de direito e a partir da estrutura psíquica que envolve os instintos de vida e de morte. A teoria psicanalítica sobre a agressividade é aprofundada com as contribuições de Melanie Klein e Donald W. Winnicott, que introduzem algumas mudanças significativas de perspectiva, apontando para a importância da agressividade para o desenvolvimento saudável do psiquismo humano.

 

Unitermos

Violência, agressividade, desenvolvimento, psicanálise, saúde

 

 

Os diferentes rostos da violência e o fetiche da segurança

“Estamos vivendo num período especialmente marcante. Descobrimos, para nosso espanto, que o progresso aliou-se à barbárie.” (FREUD, 1939, p. 67). Esta constatação de Freud, escrita às vésperas de Segunda Guerra Mundial, se aplica perfeitamente aos dias de hoje. A violência paira sobre a humanidade e, como uma sombria ave de rapina, afunda suas garras a esmo. Os meios de comunicação nos apontam cotidianamente seus rastros. Trata-se de uma espiral de barbárie onde vítimas e carrascos se confundem. Embora se multipliquem de forma obsessiva as rotinas de segurança, a sensação de estarmos desprotegidos é cada vez maior. A violência pode estar à espreita como um animal feroz e nos agarrar inesperadamente em suas presas.

O termo violência remete à idéia de violação, de intrusão agressiva no espaço físico ou psíquico de uma pessoa, de uma comunidade ou de um povo. A sensação correspondente é a de angustia diante de um perigo iminente real ou imaginário. A reação pode ser o despertar dos núcleos de agressividade da pessoa, do grupo, ou então uma sensação de “paralisação”, de “congelamento” diante do inevitável. Se no primeiro caso podemos ter uma espiral ascendente de retaliações, no segundo caso temos a sensação real ou imaginária de estarmos “à mercê” do outro.

Diante da espiral da violência, a segurança representa um desejo cada vez mais acariciado, mas nunca alcançado. Poderíamos dizer que se tornou mais um dos “fetiches” que compõem o nosso imaginário e, como tal, se constituiu em um objeto de consumo. Embora remeta ao objeto ausente, o fetiche carrega em si a sua força erótica e por isso é desejado e cobiçado. Como objeto do desejo, se torna na sociedade capitalista uma mercadoria, cujo valor de troca aumenta na medida em que for escassa sua oferta e grande sua demanda. Neste caso, porém, a demanda e a oferta são simbólicas e não apenas numéricas. Quanto maior for a sensação de exposição à violência, maior será o valor simbólico da oferta de segurança. Neste sentido, a segurança como objeto de consumo passou a ser  também sinônimo de status social, realimentando o ódio e a violência inscritos na exclusão dos que não podem exibir seus ícones.

Antes de adentrarmos o significado psíquico da violência, é importante esclarecer que o termo carrega em si um significado ambíguo.  Existem de fato várias formas de violência, algumas manifestas, outras veladas, outras ocultas. O grau de “ocultamento” varia não apenas na consciência individual, mas também no imaginário coletivo, que, de forma consciente ou inconsciente, está inscrito na maneira como a sociedade “pensa” a violência e a expressa através dos vários discursos que percorrem a cultura. A atenção da opinião pública está voltada para a violência manifesta, às vezes se volta para as formas veladas de violência, mas raramente consegue trazer para consciência os seus aspectos ocultos. É sobretudo nos consultórios de médicos, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas, no segredo do confessionário ou durante as “consultas” com algum orientador espiritual, que os aspectos ocultos da violência aparecem em toda sua dramaticidade, como uma séria ameaça à saúde pessoal e coletiva.

Gostaria de citar, para ilustrar o que está sendo dito, um Interessante artigo de Roberto Heloani (2003), que ilustra uma manifestação típica de violência invisível que atinge o mundo do trabalho, hoje marcado por uma intensa competitividade e pela constante ameaça da perda do emprego.[1] Trata-se de “uma forma particular de violência sutil e perniciosa” (HELOANI, 2003, p. 58), que se desenvolve em um ambiente hostil, “em que um ou mais indivíduos coagem um terceiro indivíduo de tal forma que ele é levado a uma posição de fraqueza psicológica” (HELOANI, 2003, p. 58-59). O termo usado é assédio moral, que consiste “na constante e deliberada desqualificação da vítima, levando-a a uma posição de fragilidade, com o intuito de neutralizá-la em termos de poder” (HELOANI, 2003, p. 59). Como o próprio autor frisa, com o tempo, o assédio pode gerar patologias nas vítimas que passam a se sentir inseguras, incompetentes, desatentas, deprimidas, estressadas. Em alguns casos o assédio moral pode levar ao assédio sexual, descrito nos filmes Disclosure e Oleana.

Por trás do “ocultamento” da violência existe uma necessidade. Como veremos mais adiante, a violência está ligada a funcionamentos que habitam o psiquismo humano e que se manifestam sob forma de agressividade. Trata-se de núcleos psicóticos de nosso psiquismo, povoados por “pensamentos impensáveis”, objetos bizarros (BION, 1957), ou seja objetos psíquicos sem ligação representativa, uma mistura de percepções sensoriais e emocionais inconscientes, que não podem ser significados e que, portanto devem ser psiquicamente evacuados e atacados, alimentando assim nossos núcleos paranóides e os processos projetivos. A agressividade, contudo, é “percebida” internamente como algo ameaçador e perigoso. Na civilização ocidental, marcada pelos ideais éticos cristãos, é ainda mais difícil que a agressividade encontre um lugar simbólico na cultura que permita sua manifestação, tanto no plano pessoal como comunitário. Para exorcizá-la é necessário projetá-la para fora de nós, em um outro, real ou imaginário, que se torna o depositário de nossa violência interna. Este processo não é apenas individual, mas opera também nos grupos. Como no caso dos indivíduos, cada agrupamento humano de fato carrega em si uma porção de agressividade que o mantém coeso e o ajuda a perseguir seus objetivos, mas que também o leva a “ocultar” sua própria violência e a projetá-la para fora de si em outro grupo ou em alguns dos seus membros. Uma vez localizada claramente fora de nós ou fora do grupo, a agressividade pode se tornar “manifesta” e ser odiada e estigmatizada no outro. O ritual judaico do bode expiatório tinha exatamente a finalidade de viver de maneira simbólica essa necessidade do nosso psiquismo.[2]

 O “ocultamento” da violência pode ser lido também sob um vértice ideológico. Se de fato o indivíduo e o grupo necessitam de uma dose de agressividade para conseguir seus objetivos, em uma sociedade cada vez mais competitiva e excludente, a agressividade deve ser cada vez maior. Evidentemente, quanto mais próximo for o objeto do desejo das necessidades básicas,  mais intensa será a luta para consegui-lo e menos controlável a agressividade envolvida nesse movimento. Neste sentido, o capitalismo neoliberal, ao promover uma maior concentração de renda e uma administração “alucinada” dos recursos naturais, está revelando cada vez mais o seu rosto excludente e a sua barbárie. Isto porém não pode ser “revelado”, deve permanecer oculto para manter a “ilusão” de que a proposta neoliberal representa o “eixo do bem”, ou seja a maneira mais civilizada de viver, sob a égide do direito e da “democracia”. 

Se não for possível um processo de “significação” que permita equacionar os processos ocultos e a realidade, o caminho será o sintoma. Podemos dizer portanto que as várias manifestações da violência que conhecemos (seqüestros, assaltos, tráfico de entorpecentes, terrorismo, etc.) são manifestações sintomáticas de um mal-estar mais profundo que a sociedade se recusa a “pensar” (desemprego sistêmico, concentração de renda, uso predatório dos recursos naturais, etc.).  A violência manifesta é o sintoma de uma violência oculta que não pode ser “significada” e “pensada”.  Creio que aqui possamos fazer uma extrapolação e usar o termo pensar no sentido bioniano, embora estejamos falando de processo coletivos de caráter ideológico e não de processos inconscientes. Bion concebe o “pensar” não apenas como uma forma racional de apreensão da realidade, mas como um aprender com a experiência, uma forma de equação que envolve um processo racional e  emocional  de apreensão tanto do mundo interno, no caso o que a ideologia não permite pensar, quanto do mundo externo (BION, 1962, p. 130-131), ou seja da realidade em toda a sua complexidade. Trata-se evidentemente de uma forma de “pensar” que inclui a possibilidade de suportar o impensável e as tensões dialéticas entre os vários aspectos que caracterizam nosso mundo interno e o mundo externo (Cf. BION, 1987).

 

Freud e a violência

Nos escritos de Freud encontramos vários textos dedicados ao estudo da agressividade. Como médico e “cientista”, filho de uma época dominada pelo pensamento positivista, sua atenção estava constantemente voltada para os fenômenos que ele observava em seu consultório e que o levaram várias vezes a reformular suas teorias. Neste sentido, era impossível não levar a sério às manifestações que apontavam para a presença da agressividade nos seus pacientes, que ele acabou ligando á própria ontogênese do aparelho psíquico. Existe contudo um texto em que Freud se dedica de maneira explícita ao tema da violência. Trata-se de uma série de considerações sobre a guerra escritas em resposta a uma carta que Einstein lhe dirigiu. Nesta correspondência Freud se volta para as manifestações culturais e para o funcionamento psíquico do grupo e apresenta de forma bastante clara e sintética sua teoria sobre os instintos. Creio que, por se tratar de um texto escrito nos últimos anos de vida de Freud e concebido numa perspectiva não propriamente “psicanalítica”, nos permita uma abordagem clara e acessível do seu pensamento.

Já as primeiras considerações deste texto nos surpreendem, pois parecem ir exatamente na direção contrária do que consideramos ser o senso comum dos povos civilizados e daquilo que poderíamos definir como uma certa ideologia do direito. “Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra” (FREUD, 1933, p. 198). Por ser inevitável que existam conflitos de interesses entre os homens, o que mantém coesa uma comunidade é a lei. Esta deve ser aplicada mediante o uso da força, e portanto com o uso da violência, para que os interesses do grupo sejam preservados quando contrastam com os interesses dos indivíduos. Num convívio “civilizado”, portanto, “aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade.” (FREUD, 1933, p. 199). Qualquer comunidade, contudo, reúne indivíduos (ou grupos) de força desigual, vencedores e vencidos, senhores e escravos. É evidente portanto que as “leis são feitas por e para os membros governantes e deixa[m] pouco espaço para os direitos daqueles que se encontram em estado de sujeição” (FREUD, 1933, p. 200).

As coisas se complicam se levarmos em conta dois fatores. Quem detém o poder, de fato, tende a se colocar acima da lei (uma forma de violência bastante comum hoje: a corrupção). Em segundo lugar, os membros oprimidos do grupo fazem constantes esforços para obter mais poder e ver reconhecidas na lei algumas modificações efetuadas nesse sentido — isto é, fazem pressão para passar da justiça desigual para a justiça igual para todos “(Freud, 1933, p. 200). Estes dois movimentos causam em última análise um “crescimento da lei”, mas antes que isso aconteça deflagram novos conflitos e, portanto, mais violência. O ideal, para Freud, seria se ao poder coercitivo da lei, mediante o uso da força, fosse substituído o poder das idéias, criando uma identificação dos seres humanos em torno de determinados valores e princípios comuns. Freud, contudo, não parece ser otimista quanto à viabilidade dessa perspectiva: “Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência” (FREUD, 1933, p. 202).

O fenômeno da violência parece portanto inevitável no convívio entre os povos. A visão aparentemente “pessimista” de Freud se funda na sua teoria dos instintos, que ele ilustra neste texto de forma resumida.

“De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, (...)  aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. (...) Nenhum desses dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos.” (FREUD, 1933, p. 202-203) 

Para Freud, “o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito.” (FREUD, 1933, p. 203).

A pulsão de morte é um conceito introduzido por Freud em 1920, na sua obra Além do princípio do prazer (1920). [3]  Estamos nos anos que seguem a Primeira Guerra Mundial. Com a mudança radical das estratégias de guerra e dos armamentos bélicos, o número de mortos tinha sido enorme, de ambos os lados, dando uma conotação particularmente violenta e cruel ao conflito. Na Áustria, o quadro do pós-guerra é dramático: instaura-se uma terrível crise econômica. O clima social é conturbado, como no resto da Europa. Em Viena falta alimento e combustível para  o aquecimento. Os bens de primeira necessidade são racionados. Para tornar o panorama ainda mais dramático, a Febre Espanhola ceifa milhares de vítimas. A própria mulher de Freud adoece e a filha dele morre, deixando dois netos.

A conceituação da presença de um instinto[4] de vida e de um instinto de morte tornou-se necessária contudo independentemente desse contexto histórico, a partir da própria clínica psicanalítica, onde Freud constatou a existência  de alguns fenômenos, que não seria possível explicar mantendo apenas a libido (princípio do prazer), como único fator propulsor do dinamismo humano.  A resistência de certos pacientes ao tratamento analítico, o fenômeno da repetição, ligado a situações traumáticas, e a própria peculiaridade da transferência que se instala durante uma análise e que remete a situações dolorosas da vida do paciente, fizeram com que Freud concebesse a existência de “uma força que está se defendendo por todos os meios possíveis contra  o restabelecimento e que está absolutamente decidida a apegar-se à doença e ao sofrimento” (FREUD, 1937, p. 259).  No mesmo texto, ele define esta força como um “instinto de agressividade ou de destruição”.

Com Freud a consciência, a grande protagonista da filosofia do XIX século, perde a sua centralidade. O homem freudiano é um ser dividido. O conceito de inconsciente abre uma cisão insanável na condição humana. Com o inconsciente instaura-se no ser humano um conflito inelutável, que tem em sua raiz o desejo, um desejo, que, como dizia Schopenhauer, é insaciável... A função da terapia é  “uma educação para a realidade” (MEZAN, 1998, p. 341). O homem é chamado a superar a ilusão de poder possuir de forma onipotente o Objeto do seu desejo. Abre-se aqui uma série de desafios, que, como explica Mezan, nos confrontam com a cultura, a religião, a ideologia e a própria Filosofia, se esta for concebida com pretensão de possuir o Real. Neste sentido a “filosofia” freudiana, não é pessimista, e sim profundamente realista. Viver torna-se um desafio que supõe saber “conviver”, como diria Heidegger,  com a situação dramática do dasein, cuja “essência” é ser para a morte. Sartre aponta em seus escritos que viver é uma situação dramática, pelo fato do ser humano ser “condenado” a ser livre e a escolher. Ambos reconhecem e assumem a cisão que Freud introduziu de forma tão magistral.

A violência como fator constitucional interno

Esta visão do psiquismo humano é retomada por Melanie Klein, que faz da “pulsão de morte” de Freud um dos pontos centrais de suas teorias sobre o funcionamento mental. Um dos principais méritos desta autora é de ter se debruçado sobre o desenvolvimento psíquico da criança nos primeiros anos de vida. Suas formulações, seguindo a tradição freudiana, mantêm o foco nos funcionamentos intrapsíquicos do bebê, mas já apresentam  alguma abertura sobre as relações interpsíquicas e sua interferência na formação do psiquismo humano. A partir da pesquisa clínica desta autora, a psicanálise se depara portanto com o dinamismo das relações do psiquismo em seus estágios iniciais com o mundo externo (relações de objeto) e, em particular com o primeiro representante do mundo externo, a mãe (seio materno). “Sob o predomínio dos impulsos orais, o seio é instintivamente sentido como sendo a fonte de nutrição e,portanto, num sentido mais profundo, da própria vida“ (KLEIN, 1957, p. 210). Dependendo da “capacidade do bebê de investir suficientemente o seio ou seu representante simbólico, a mamadeira” (KLEIN, 1957, p. 210), restaura-se, portanto, a perdida unidade pré-natal e o senso de segurança que a acompanha.  Se isto acontecer, o “seio bom é tomado para dentro e torna-se parte do ego, e o bebê, que antes estava dentro da mãe, tem agora a mãe dentro de si” (KLEIN, 1957, p. 210). Klein relaciona o anseio universal pela segurança do estado pré-natal à necessidade premente de idealização. Tudo o que é idealizado, no entanto, se torna persecutório, diante da inadequação dos objetos externos à voracidade do desejo. O próprio parto introduz as primeiras ansiedades persecutórias, que podem se aliar às sensações desagradáveis do bebê ainda no estágio pré-natal. Na própria relação com a mãe, as relações com o mundo se prenunciam portanto como ambíguas, duplas  (seio bom e seio mau).

Klein estabelece uma importante relação entre os impulsos destrutivos e a inveja:

“(...) a inveja é uma expressão sádico-oral e sádico-anal de impulsos destrutivos, em atividade desde o começo da vida, e que tem base constitucional” (KLEIN, 1957, p. 207).

Inveja, ciúme e voracidade adquirem para esta autora uma particular relevância por determinar a forma como o sujeito se relaciona com o objeto bom (desejado e amado). Por se tratar de impulsos que acompanham as manifestações de violência creio seja interessante ver como Klein as define. “A inveja é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável — sendo o impulso invejoso de tirar este algo e de estragá-lo” (KLEIN, 1957, p. 212). Já o ciúme, embora seja relacionado à inveja, envolve uma relação com, pelo menos duas pessoas e diz respeito “ao amor que o indivíduo sente que lhe é devido e que lhe foi tirado, ou está em perigo de sê-lo, por seu rival” (KLEIN, 1957, p. 212). “A voracidade [por sua vez] é uma ânsia impetuosa e insaciável, que excede aquilo que o sujeito necessita e o que o objeto é capaz e está disposto a dar” (KLEIN, 1957, p. 212). De todos esses impulsos, evidentemente a inveja é o mais destrutivo.

No que se refere aos impulsos destrutivos, os fatores constitucionais mantêm para esta autora a mesma importância que já fora destacada por Freud e por Abraham: “a voracidade, o ódio e as ansiedades persecutórias (...) têm uma base inata” (KLEIN, 1957, p. 261). As variações na intensidade desses fatores constitucionais são “ligadas à preponderância de uma ou outra das pulsões na fusão das pulsões de vida ou de morte postulada por Freud” (KLEIN, 1957, p. 261) e delas depende a força ou a fraqueza do ego. As dificuldades de suportar a ansiedade, a tensão e a frustração são indício de um ego fraco que, para sobreviver, deve recorrer a um uso intenso de defesas, tais como a negação, a cisão e a onipotência.[5]  Em contrapartida “um ego constitucionalmente forte não se torna presa fácil da inveja, e é mais capaz de efetuar a cisão entre bom e mau” (KLEIN, 1957, p. 261-262). Neste sentido, o ego seria menos sujeito aos processos “que levam à fragmentação e que fazem parte de características esquizo-paranóides acentuas” (KLEIN, 1957, p. 262). Klein não nega que as experiências externas possam ter algum impacto no desenvolvimento emocional do bebê, mas “o impacto dessas experiências externas é proporcional à força constitucional dos impulsos destrutivos inatos e das ansiedades paranóides decorrentes” (KLEIN, 1957, p. 262). A existência de fatores inatos seria portanto um limitador para a própria terapia psicanalítica e para a constituição do caráter da pessoa.

Na linha de pensamento até aqui esboçada, a violência, por ser ligada aos instintos destrutivos, apresentar-se-ia como um fator constitutivo, inscrito no próprio funcionamento do psiquismo humano e na polaridade estabelecida entre a existência do instinto de vida e do instinto de morte. A violência seria portanto um aspecto do psiquismo que deve ser “elaborado” e integrado, trazendo  para a consciência suas conotações inconscientes. No decurso de uma análise bem-sucedida “junto com o ódio, a inveja e a destrutividade, outras importantes partes do self  que haviam sido perdidas são recuperadas” (KLEIN, 1957, p. 265). A pessoa passa assim a sentir-se “mais inteira, em ganhar controle [grifo meu] sobre o próprio self  e em ter um sentimento mais profundo de segurança em relação ao mundo em geral” (KLEIN, 1957, p. 266). Se a agressividade é constitutiva, a violência parece ser um aspecto inelutável da existência humana, um animal feroz que somente pode ser mantido sob controle se for fechado numa jaula. As esperanças de podermos lidar com a violência, sem o uso da violência são portanto poucas.

A violência necessária

Um importante avanço na concepção do desenvolvimento do psiquismo humano e no papel da agressividade nesse processo é representado pela teoria de D. W. Winnicott.[6] Como frisa Abram no verbete dedicado ao termo (2000), a “agressão” e a “destruição” desempenham na obra de Winnicott “um papel fundamental em sua teoria do desenvolvimento emocional, representando-se como o ponto chave de vários de seus mais conhecidos conceitos” (ABRAM, 2000, p. 4).  Dois pontos contudo diferenciam este autor na maneira de conceber a agressividade e o próprio desenvolvimento psíquico. Em primeiro lugar, o papel dos fenômenos interpsíquicos  que ocorrem sobretudo nos primeiros meses de vida. À diferença de Klein, para Winnicott, a provisão ambiental representa um fator fundamental para a constituição do psiquismo humano. Sem uma mãe “suficientemente boa” o bebê que nasce com um potencial de integração não se constitui psiquicamente como um ser integrado.

Outro fator importante é a recusa deste autor de aceitar o instinto de morte kleiniano. Para Winnicott, de fato, a inveja e o ódio são estruturas primárias, cuja manifestação é fundamental para o crescimento emocional do bebê. “Na teoria da agressão de Winnicott é o ambiente externo que exerce influências sobre o modo com que o bebê irá lidar com a agressão inata” (ABRAM, 2000, p. 4). Um ambiente favorável faz com que esses instintos possam ser integrados de forma positiva na personalidade do bebê, habilitando nele a possibilidade de “brincar” e sucessivamente de “criar” e de interagir no mundo da cultura. Ao contrário, uma provisão ambiental marcada pela privação pede acarretar processos destrutivos e violentos para o próprio psiquismo. A agressividade, portanto, dependendo do ambiente interpsíquico que caracteriza o desenvolvimento do indivíduo nos primeiros anos de vida, pode ser integrada à personalidade de forma saudável, ou então ela é “atuada” de forma destrutiva e anti-social. Neste sentido para Winnicott  a agressividade instintiva, “apesar de estar pronta para ser mobilizada a serviço do ódio, originalmente é parte do apetite, ou de alguma outra forma de amor instintivo” (citado em ABRAM, 2000, p. 7-8).

Um breve texto de Winnicott nos permite compreender em que sentido ele se distancia de Freud e de Klein, abrindo-nos os horizontes de uma clínica psicanalítica completamente nova:

“Segundo meu ponto de vista tanto Freud como Klein desviaram-se (...) e refugiaram-se na hereditariedade. O conceito de instinto de morte poderia ser descrito como uma reafirmação do pecado original. Já tentei desenvolver o tema de que, tanto Freud como Klein  evitaram , assim procedendo, a implicação plena da dependência e, portanto, do fator ambiental.” (WINNICOTT, 1975, p. 102)

Ao assumir o papel fundamental do ambiente, uma nova variável é inserida na equação do psiquismo e, com isso, o que antes era considerado hereditário, passa a ser atribuído à provisão ambiental. Com isso, a visão de Winnicott não admite aqueles fatores de caráter “determinista” típicos tanto da visão freudiana, como da kleiniana.

Outro conceito muito importante para uma concepção mais ampla da agressividade e da própria violência é aquele da agressão primária. Para entender a importância da agressividade na constituição do psiquismo humano, é necessário retomar um pressuposto fundamental da teoria winnicottiana. Para este autor, o ser humano nasce como um ser que dispõe de uma “tendência” à integração, mas que ainda não é integrado. Winnicott concebe o desenvolvimento psíquico como um fenômeno complexo. Desde o nascimento, o bebê passa por três processos que são fundamentais. Trata-se da integração, da personalização e da realização. Os cuidados (caring, handling) e a sustentação (holding) maternos possibilitam sucessivas apropriações psíquicas tanto da realidade interna (self), como da realidade externa. Estes processos fazem com que o bebê comece a se sentir como uma unidade psíquica que habita um corpo em uma continuidade espaço-temporal, relacionando-se com a realidade, que, aos poucos, é percebida como externa. O processo de desenvolvimento psíquico passa por etapas que envolvem uma relação com os objetos que vai, se tudo correr bem, do fechamento narcísico onipotente à possibilidade de estabelecer relações envolvendo uma realidade compartilhada que envolve pessoas “totais”. 

A crueldade primária é o que possibilita ao ser humano vivenciar uma relação com o mundo externo em que os objetos que se apresentam são percebidos como objetos internos, fruto da “sonhação” alucinatória do bebê, ao mesmo tempo em que eles começam a adquirir uma consistência prória. O objeto desejado é, por assim dizer, criado internamente, alucinado pelo bebê e, ao mesmo tempo, se o ambiente (mãe) for suficientemente bom, ele será encontrado lá fora. Isto acontece quando a mãe consegue se adaptar às necessidades do bebê, sem ser intrusiva. O que possibilita ao bebê sair aos poucos do seu fechamento narcísico e, ao mesmo tempo, ter acesso ao próprio self ,  é a “oposição” que vai se criando com os objetos externos. Na medida em que os objetos subjetivos começam a ser percebidos como objetos “não eu” eles são atacados, justamente por fugirem ao controle onipotente do bebê. Se o objeto (mãe) suportar o ataque sem ficar destruído,[7] o bebê sente que o objeto sobreviveu à sua fantasia destrutiva e que, portanto, ele tem uma consistência própria. A partir desse momento, surge a possibilidade da “preocupação” com o objeto.  Constitui-se assim um espaço intermediário, o espaço da ilusão, situado entre o mundo interno do bebê e o mundo externo e povoado por objetos transicionais (nem internos, nem externos). Sua característica é o paradoxo, pois não é nem interno, nem externo. Em outros termos, o bebê percebe que pode se relacionar com o mundo numa relação de confiança, sem que o mundo seja percebido como uma ameaça à sua integridade psíquica (self).  Naturalmente se a oposição externa for demasiadamente intrusiva o sentido de self  é abortado e o mundo externo é sentido como perigoso e ameaçador. Como defesa o psiquismo desenvolve uma estrutura que Winnicott define como falso self.

Os instintos agressivos, são extremamente importantes pois permitem ao self  de manter “um sentimento de realidade e de relação”. Se na teoria psicanalítica clássica a agressividade é uma reação ao encontro com o princípio da realidade que frustra a onipotência narcísica do inconsciente, na teoria winnicottiana ”é a pulsão destrutiva que cria a qualidade da externalidade” (citado em ABRAM, 2000, p. 21) e portanto a possibilidade de se relacionar de forma saudável com o mundo externo. É a agressividade que permite ao ser humano de se relacionar com o mundo sem perder o contato com o seu si-mesmo (self), permitindo assim aos núcleos psicóticos e neuróticos da personalidade de conviverem em um equilíbrio saudável.

A radicalidade da teoria winnicottiana nos permite algumas considerações finais. Em primeiro lugar, embora a agressividade faça parte do funcionamento psíquico humano, a violência não é necessariamente a sua resultante natural. Em suas manifestações individuais e sociais a violência é fruto de uma impossibilidade de integrar os instintos agressivos, tanto no plano psíquico individual, como coletivo.  A violência ambiental à qual o indivíduo e os grupos são submetidos provoca uma dissociação interna, uma fragmentação psíquica que leva ao uso destrutivo da agressividade. A agressão, contudo, nem sempre tem como alvo o mundo externo. Às vezes, o movimento dos ataques sádicos reverte “para dentro”, resultando em funcionamentos masoquistas autodestrutivos.  As manifestações sintomáticas desses ataques dirigidos pelo psiquismo contra o próprio sujeito são as mais variadas. Dependência química, alcoolismo, tendência a fazer dívidas, auto-sabotagem, etc., são algumas delas. Quando o ataque vai em direção ao outro, os sintomas que revelam a “atuação” dos núcleos agressivo são outros. Agressões verbais, ou físicas, inveja, ciúme, voracidade, enfim toda uma gama de ataques que tornam o convívio humano muito sofrido.

Por outro lado há uma violência que é necessária. Quando o indivíduo ou o grupo sofrem intrusões maciças, a violência é um sinal de saúde psíquica, pois é através dela que se torna possível a sobrevivência a essas situações destrutivas.        

 

Bibliografia

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WINNICOTT, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

 

 

 



[1] Sobre o mesmo tema, cf. também  “Quando o chefe vira réu”, um artigo publicado na revista Época de 27/09/2004. De acordo com dados divulgados nesse semanal  1 a cada cinco trabalhadores brasileiros sofreria assédio moral no trabalho. 

[2] Sobre este tema remeto `ao interessante livro de René Girard (2004).

[3] Para uma melhor compreensão deste conceito cf. GIROLA, 2004, p. 44-50 e 90.

[4] Em português a palavra trieb tem sido normalmente traduzida por “pulsão”; em inglês a tradução clássica dos textos de Freud, revisada pelo próprio autor empregou o termo instinct, preferindo-o a drive (Cf, GIROLA, 2004, p. 39). Para um estudo mais aprofundado remeto ao verbete “pulsão” do Dicionário comentado do alemão de Freud (HANNS, 1996, p. 338-354)

[5] A negação é um “ataque ao objeto” que resulta na negação de qualquer aspecto bom nele existente. A cisão é a incapacidade de superar a fragmentação dos objetos parciais que são percebidos como bons/ruins e integrá-los em objetos totais, em condições de reunir em si tanto aspectos bons quanto ruins, daí a tendência de idealizar ou “demonizar” os objetos. A onipotência leva a pôr entre parêntesis os objetos externos e suas exigências e a atuar como se eles não existissem.

[6] Para uma visão mais completa sobre a complexa teoria do desenvolvimento psíquico desse autor remeto ao capítulo “Winnicott: rumo a uma clínica do Self ” publicado no livro A psicanálise cura? (GIROLA, 2004, p. 127-160).

[7] A mãe fica destruída quando não consegue se adaptar às necessidades do bebê, que são assim substituídas, de forma intrusiva, pelas necessidades dela. É o caso da mãe ansiosa, que despeja no bebê cuidados resultantes de suas necessidades, geralmente ligadas a sentimentos de culpa. A mãe “histérica” ou agressiva, que reage com violência às necessidades do bebe, geralmente manifestadas pelo choro ou por um estado de inquietação, também demonstra não “suportar” a estrutura narcísica e onipotente do bebê. Em todas essas situações o ambiente se demonstra não confiável e o bebê se retrai, refugiando-se em uma estrutura adaptativa precoce (falso self ). 

Self (Winnicott)

O conceito de Self

 

© Roberto Girola
(Junho 2000)

Índice dos conteúdos

Introdução

O objetivo deste trabalho é focalizar algumas abordagens do conceito de self (ou si-mesmo) e, a partir de uma análise sucinta dos desafios que a formação do self enfrenta hoje, compará-las com a perspectiva da psicanálise winnicottiana. Gostaria de iniciar com um rápido panorama que nos permita identificar diferentes conotações da noção de self, para depois ver em que sentido o self do homem contemporâneo é ameaçado e finalmente analisar a contribuição da abordagem de Winnicott, em sua especificidade.
Do ponto de vista filosófico, o conceito de self está de alguma forma relacionado ao conceito de identidade. Charles Taylor traça no livro As fontes do self um panorama abrangente sobre as raízes que levam à construção da identidade moderna. Não caberia na limitação deste trabalho uma análise detalhada desta obra [1]. No entanto, parece-me interessante levantar, a partir das considerações deste autor, um elemento que tem sido considerado por muito tempo como fundante na constituição da identidade humana e que é hoje posto em discussão no contexto cultural contemporâneo. Refiro-me à crise das metanarrativas, para usar uma terminologia empregada pela corrente pós-moderna. Por trás desta crise encontramos uma postura que tende a negar a possibilidade de uma fundamentação da ética no sentido clássico e, portanto, um questionamento sobre a possibilidade de se estabelecer um fundamento para a própria identidade humana. Como observa Taylor, surge uma desconfiança em relação aos grandes ideais, advinda da constatação foucaultiana de que elevados ideais éticos e espirituais costumam entrelaçar-se com exclusões e relações de dominação. Tais narrativas são importantes, pois representam um ponto de referência sobre o qual, por muito tempo, se moldaram as representações ligadas à identidade do homem (sobretudo no Ocidente). O autor constata que foi justamente a sensação de que os hiperbens (ideais supremos) podem sufocar-nos ou oprimir-nos, que levou à revolta naturalista contra a religião e a moralidade tradicionais, pondo assim em crise elementos que por muitos séculos foram considerados como fundantes para a identidade humana. Se for verdade que “os mais elevados ideais e aspirações espirituais também ameaçam impor as cargas mais esmagadoras à humanidade”,[2] podemos perguntar em que sentido esses cálices envenenados - para usar uma expressão do próprio Taylor - poderiam contribuir, de fora para dentro, para a constituição do self. Ou será que o self só pode ser construído de dentro para fora? Neste caso, como acontece essa construção? Ainda, o self é uma criação essencialmente individual ou esta criação responde de alguma forma, a um roteiro pré-definido, a uma ordem universal de essências? E, poderíamos acrescentar, o self tem algo a ver com o caráter, com a personalidade moral de uma pessoa? Vamos por enquanto deixar em suspenso essas questões, para retomá-las no fim do nosso trabalho.
Em Hegel, o conceito de self se funde com aquele de autoconsciência: “a consciência primeiro encontra a si mesma na autoconsciência (...) seu ponto crítico, onde ela deixa o espetáculo colorido do imediato sensível, sai do vazio escuro do supra-sensível transcendente e remoto, e entra para a luz diurna espiritual do presente” (Fenomenologia do Espírito)[3]. Para William James o self se desdobra, sendo em parte objeto e em parte sujeito: “o meu self total, como se fosse duplo, em parte conhecido e em parte cognoscente [sic], deverá ter dois aspectos distintos que (...) podemos chamar um mim (me) e o outro eu (I)”(Compêndio de Psicologia).[4] Estas primeiras definições nos mostram o self como a função psíquica que permite ao indivíduo de se dobrar sobre si mesmo, favorecendo a consciência de si mesmo, um conceito que, embora não seja usado aqui no sentido estritamente freudiano, de certa maneira, pode ser aproximado ao conceito de ego.
Norbert Wiley apresenta no seu livro O self semiótico, uma concepção mais sofisticada.[5] Desenvolvendo conceitos já abordados por C. S. Peirce e G. H. Mead, ele chega à conclusão que o self combina “as tríades temporal, semiótica e dialógica”. Isto quer dizer que o self, no plano dialógico, se desdobra num eu que dialoga consigo mesmo (você), e que tem como referência um mim. No plano temporal, o self representa uma mediação em que essas três conotações se relacionam respectivamente no presente, no futuro e no passado. No plano interpretativo, o self se desdobra no signo, no intérprete e no objeto, três dimensões semióticas que se relacionam (respectivamente) com as outras.
Os seres humanos são uma tríade de tríades e, além disso, as três se fundem em uma só. Enquanto fundidas, irei referir-me a elas, de uma maneira dialógica abreviada, como eu, você, mim, embora os nomes mais precisos sejam eu-presente-signo, você-futuro-intérprete e mim-passado-objeto. Os seres humanos não são nenhum dos três (ou nove). São os três juntos, incluindo tanto os elementos como as relações entre esses elementos. Os homens consistem em presente, futuro e passado; signo, intérprete e oeto; eu, você, mim; e todas as sobreposições, e capacidade de conexão, e solidariedade entre esses elementos.[6]
Citei este autor porque introduz o conceito de self que atua como elemento que integra várias instâncias do ser humano. No plano da estrutura temporal humana, ele integra o passado o presente e o futuro, uma dimensão particularmente interessante para as considerações que serão feitas a seguir. Da mesma forma, a introdução do self como estrutura semiótica é interessante porque projeta as atividades do self no campo simbólico, um campo que, como sabemos, é importante para a Psicanálise. Por sua vez, a estrutura dialógica do self, introduz um diálogo interno entre diferentes instâncias da psique. Isto não somente permite o desdobramento do eu sobre si mesmo, mas também introduz uma instância do eu, o mim, que garante a continuidade objetiva, representando, em sua rigidez de objeto, um referencial quase superegóico, para usar uma terminologia psicanalítica.

O conceito de self na Psicologia Analítica de Jung [7]

Na Psicologia Analítica o termo indica o conjunto dos fenômenos psíquicos de um indivíduo. Por um lado o self integra os objetos da experiência, percebidos pela consciência, com os fatores que ainda permanecem inconscientes. Jung, no decorrer de sua obra, dá várias definições de self. Pieri as agrupa em doze categorias.[8]
  1. Si-mesmo como lei moral do indivíduo. Neste sentido, se contrapõe ao superego, que Jung define como lei geral. [9] O ego pode estar em conflito tanto com o superego como com o self. O conflito do ego com a lei moral do si-mesmo gera um
  2. senso de inferioridade, que o si-mesmo tende a compensar na sua constante busca de equilíbrio, que resulta numa ampliação da personalidade, mediante a inclusão dos elementos inconscientes. Para Jung a consciência moral e a consciência de si são equivalentes e estão à base do processo de individuação e, portanto, do processo da análise. Criticando o intuito adaptativo à realidade cultural da psicanálise freudiana, Jung afirma que, por trás do homem, não temos a lei moral e tampouco a opinião pública, mas uma individualidade da qual ele é ainda inconsciente. Este substrato inconsciente é justamente o self, do qual o ego é o expoente na consciência. O ego se relaciona ao si-mesmo como o objeto ao sujeito: “como o inconsciente, o si-mesmo é o ser a priori do qual emana o eu” (p. 653). “Enquanto inconsciente o si-mesmo corresponde ao superego freudiano” (p. 653), mas, uma vez liberado das projeções, ele deixa de coincidir com as opiniões dos outros e nos põe em contato com nosso verdadeiro eu. Neste sentido, afirma Jung, “o si-mesmo opera como unio oppositorum [união dos opostos], dando lugar à mais direta experiência do divino psicologicamente concebível” (p. 653).
  3. O si-mesmo, o como estado psíquico, resulta na alienação de si, na realização de si ou, paradoxalmente, na renuncia de si (que supõe, porém, a aceitação de si).
  4. O si-mesmo relacionado com o processo psíquico, resulta num conceito que se entrelaça com o anterior, no âmbito da gradual diferenciação das funções psíquicas.
  5. O si-mesmo como eu objetivo: nesta acepção, o self indica aquilo que o indivíduo é realmente, em oposição ao conceito de persona, ou seja, ao seu papel social (a persona é uma espécie de máscara que o indivíduo veste para se relacionar com o contexto social).
  6. O si-mesmo como fator subjetivo, regido pela antinomia si-mesmo/mundo, torna possível a consciência da relação sujeito/objeto, que supõe uma polarização e o afastamento do objeto. Neste sentido o self constitui a consciência do sujeito, que se contrapõe ao eu. A verdadeira tarefa da terapia é ajudar o eu a encontrar o si-mesmo.
  7. O si-mesmo como uma estrutura psíquica totalizante proporciona a integração de todo o psiquismo, permitindo a passagem da fragmentação para a unidade.
  8. O si-mesmo relacionado ao inconsciente coletivo. Apesar de representar a essência da individualidade, o self, por estar vinculado ao inconsciente, é também relacionado à construção do universal, do coletivo. Nos sonhos, em particular, o si-mesmo entra em contato com o inconsciente coletivo, que é a base do inconsciente individual e, portanto, do próprio self.
  9. O si-mesmo como relação homem/mundo é o resultado da integração daquilo que é interno com aquilo que é externo e, ao mesmo tempo, daquilo que é consciente com aquilo que é inconsciente, sendo, portanto, “a meta da vida”.
  10. O si-mesmo como diferenciação originária é relacionado com a diferenciação originária entre sujeito e objeto.
  11. O si-mesmo e a integração psíquica. Em oposição ao fenômeno de cisão psíquica, o self está por trás do processo que integra os elementos conscientes e inconscientes do psiquismo humano, no plano do conhecimento e da ação.
  12. O si-mesmo como união dos opostos representa a reunificação paradoxal dos opostos. Neste sentido, é considerado o símbolo da tendência à unidade da psique. Esta união, contudo, não deve ser considerada como uma síntese, e sim uma coniunctio, uma conjunção na qual convergem consciente e inconsciente, luz e sombra, individual e coletivo, sujeito e objeto, corpo e psique, etc. Isto significa que a totalidade do homem é paradoxal e somente pode ser descrita a partir de antinomias.

O conceito de self na Psicanálise

Em Freud a palavra self (das Ich) é usada com conotações diferentes, como observa o tradutor da versão inglesa das obras de Freud.
“Parece possível detectar dois empregos principais: um em que o termo distingue o eu (self) de uma pessoa como um todo (incluindo, talvez, o seu corpo) das outras pessoas, e outro em que denota uma parte específica da mente, caracterizada por atributos e funções especiais (o grifo é meu). Foi neste segundo sentido que ele foi utilizado na elaborada descrição do ‘ego’ no primitivo ‘Projeto’ de Freud, de 1895 (Freud, 1950a, Parte I, Seção 14), e é neste mesmo sentido que é empregado na anatomia da mente, em O Ego e o Id. Em algumas de suas obras intervenientes, particularmente em vinculação ao narcisismo, o ‘ego’ parece corresponder sobretudo ao ‘eu’ (self). Nem sempre é fácil, contudo, traçar uma linha entre esses dois sentidos da palavra”.[10]
Na teoria psicanalítica, somente mais recentemente o conceito de self foi adquirindo umaconotação mais definida.[11] Kohut resume estes avanços no prefácio do seu livro Análise do self.
Um avanço aparentemente simples, mas pioneiro e decisivo, na metapsicologia psicanalítica, a separação conceitual entre self e ego (Hartmann); o interesse na aquisição e na manutenção de uma ‘identidade’, bem como nos perigos aos quais este conteúdo mental (pré-)consciente é exposto (Erikson); a gradual cristalização de uma existência psicobiológica separada, fora da matriz da união de mãe e criança (Mahler); e algumas detalhadas e importantes contribuições clínico-teóricas (Jacobson) e clínicas (A. Reich) formuladas psicanaliticamente nos últimos anos – todo esse trabalho atesta o crescente interesse dos psicanalistas por um assunto que tendia a ser lançado para o segundo plano pelo farto material que contribuiu para a investigação do mundo dos objetos, isto é, para as vicissitudes dinâmicas e evolutivas das imagos, ou (...) das representações dos objetos.[12]
Para Kohut, as noções de self, ego, id, superego, personalidade e identidade refletem conotações conceituais diversificadas.[13] Ego, id e superego representam, na linguagem psicanalítica, uma conceituação abstrata do aparelho psíquico, portanto uma noção distante da experiência. Já o self representa uma abstração mais próxima à experiência, pois se trata de “uma estrutura dentro da mente”, catexizada com energia instintiva e com continuidade no tempo.[14] Para este autor, “representações do self estão presentes não somente no id, no ego e no superego, mas também dentro de uma única instância da mente”.[15] Neste sentido, podem existir, lado a lado, representações contraditórias do self. “O self, assim, bastante análogo às representações de objetos, é um conteúdo do aparelho mental, mas não é um dos seus constituintes, isto é não é uma das instâncias da mente”.[16] Não fica claro, contudo, como o self, sem ser um constituinte do aparelho mental possa se tornar um organizador das atividades mentais, como o autor afirma mais adiante.[17]
Ao self são atribuídas as representações de si. Como observam Gedo e Goldberg,[18] trata-se de uma organização psíquica permanente que exerce uma influência dinâmica sobre o comportamento, como já foi pontuado por Kohut. Tais representações constituem um sistema de lembranças que não podem ser confundidas apenas com simples conteúdos mentais, e também não são simples percepções registradas na memória (relação com o passado), mas, “em virtude de seus duráveis efeitos dinâmicos”, devem ser compreendidas como uma realidade concreta, a personalidade organizada como um todo.[19] A noção de self, portanto não pode ser confundida em Psicanálise com a noção de ego, que é um conceito estrutural do aparato psíquico ligado à segunda tópica freudiana, cuja função é mediar as exigências do id, do superego e da realidade.[20]

O self ameaçado

Em sua análise sobre os fenômenos culturais e estéticos que caracterizam a “condição pós-moderna”, David Harvey,[21] observa que eles dependem da maneira mutável como tempo e espaço são percebidos, no fluxo da experiência humana. Levando em conta que esta é uma dimensão que se relaciona a uma função importante do self, como foi observado acima, parece-me importante analisar mais de perto as observações deste autor. O que caracteriza a nossa época, na opinião de Harvey, é uma compressão da noção de tempo-espaço, que ele relaciona com a tendência à superacumulação de bens e a uma aceleração do consumo iniciada no final dos anos 60. Para o homem contemporâneo, em poucas décadas, o tempo se encurtou e o espaço se estreitou. Ao lado de uma crescente concentração financeira, ocorreu uma descentralização dos centros de produção, acompanhada por uma nova concepção que tende a reduzir os tempos de giro em vários setores da produção.[22] Tudo isso levou a “uma intensificação dos processos de trabalho e uma aceleração na desqualificação e requalificação necessárias ao atendimento das novas necessidades do trabalho”.[23] Paralelamente, a aceleração na produção levou à aceleração na troca e no consumo de bens, aumentando consideravelmente a velocidade de circulação das mercadorias. Tudo hoje tende a acontecer on-line, as distâncias se encurtaram, os tempos se reduzem cada vez mais.
Por outro lado, observa Harvey, esta aceleração influencia de maneira determinante a maneira de pensar, ser e agir do homem contemporâneo. “A primeira conseqüência importante foi acentuar a volatilidade e efemeridade de modas, produtos, técnicas de produção, processos de trabalho, idéias e ideologias, valores e práticas estabelecidas”. Um primeiro sentimento, portanto, invade o homem moderno, a difusa sensação de que tudo é volátil, efêmero e, pior ainda, descartável. Esta sensação é ainda mais intensa se observarmos o mercado financeiro, cada vez mais dominado por capitais fictícios numa ciranda que resiste ao discurso onipotente dos economistas e traz cada vez mais à tona uma sensação de profunda aleatoriedade sobre a qual parece repousar a economia mundial. Harvey dedica a esta análise o último capítulo de seu livro, cujas conclusões não vêm ao caso.
Ligado a este fenômeno, observa Harvey, temos, por outro lado, a manipulação do gosto e da opinião, numa verdadeira manipulação do desejo, acompanhada por uma aceleração na produção dos signos, que alimenta a insaciável indústria cultural.[24] Como já examinei com mais profundidade num outro trabalho,[25] ao lado da inflação de signos, temos um esvaziamento de significados, pois o símbolo tem cada vez menos a função de remeter a um significado e passa a ter muito mais um foco em si mesmo, adquirindo valor de simulacro e impondo, aos poucos, uma verdadeira ditadura do significante e uma sensação geral de vazio.[26] Trata-se de uma situação que, como aponta Jameson, se refazendo ao conceito lacaniano de esquizofrenia como desordem lingüística, representa uma “esquizofrenia na forma de um agregado de significantes distintos e não relacionados entre si”.[27] Seus efeitos psíquicos são desastrosos, pois, se a identidade pessoal supõe “uma unificação temporal do passado e do futuro com o presente que tenho diante de mim”, o esvaziamento do discurso remete a uma incapacidade de “unificar o passado, o presente e o futuro da nossa própria experiência biográfica ou vida psíquica”.[28] Com o colapso da cadeia significativa, a experiência se reduz a “uma série de presentes puros, não relacionados no tempo”.[29] Como observam Deleuze e Guattary, “nossa sociedade produz esquizofrênicos da mesma forma como produz o xampu Prell ou os carros Ford, com a única diferença de que os esquizofrênicos não são vendáveis”.[30]
As novas Tecnologias da Informação (TI), por sua vez, trouxeram um cenário completamente novo, fascinante e ameaçador. Numa recente entrevista concedida à revista Veja, o psicólogo americano Larry Rosen, considerado um especialista no estudo da relação do homem com a tecnologia, faz algumas considerações interessantes.[31] Ele observa: que nunca as pessoas tiveram acesso a tanta informação. De acordo com as estatísticas, o volume de informações disponíveis dobra a cada 72 dias. Tudo isso gera uma situação de estresse. De certa forma, as observações de Rosen remetem à compressão da noção de tempo-espaço de Harvey, quando observa que a velocidade da tecnologia está alterando a nossa percepção do tempo e nos leva a viver num constante estado de alerta, que gera ansiedade e nervosismo, uma situação psíquica que ele caracteriza como tecnostress. De acordo com Rosen, os limites entre trabalho e lazer tornam-se cada vez menos claros. Ocorre, eu diria, uma quebra de barreira entre interioridade e exterioridade. Os objetos do mundo externo são percebidos cada vez mais como invasivos. Ao mesmo tempo, o homem moderno torna-se cada vez mais dependente da tecnologia, gerando uma situação neurótica, que Rosen chama de tecnose.

A doença do self, um desafio para a atual clínica psicanalítica

Na linha psicanalítica, Gilberto Safra faz uma interessante análise das repercussões da cultura contemporânea sobre o psiquismo.[32] Para este autor, o mundo atual apresenta problemas e situações que levam o ser humano a adoecer em sua possibilidade de ser, levando-o a viver fragmentado, descentrado de si mesmo, impossibilitado de encontrar, na cultura, os elementos e o amparo necessários para superar suas dificuldades psíquicas. De acordo com sua experiência clínica, no consultório as queixas mais freqüentes seriam referidas “à vivência de futilidade, de falta de sentido na vida, de vazio existencial, de morte em vida”.[33] Para uma psicanálise acostumada à escuta do desejo, que aflora nos sonhos e se faz presente nos sintomas e no discurso, através dos mecanismos de recalque, deslocamento e condensação, surge um novo desafio: pacientes que nem mesmo se constituíram em sua possibilidade de desejar. Com tais pacientes, observa Safra, e necessário “constituir os aspectos fundamentais do seu self, que até então ficaram sem realização”.[34] E continua: “Mais do que um processo de deci-framento [sic] das produções do paciente, há uma apresentação do self em gesto e em formas imagéticas (formas sensoriais) [em nota o autor esclarece tratar-se de imagens sonoras, visuais, gustativas, tácteis] sustentados pela relação transferencial, na qual o indivíduo se constitui e se significa frente ao outro”.[35] Como observa Safra, percebe-se em tais pacientas uma “fome de amor”, de uma experiência do si-mesmo que possibilite o surgir da subjetividade humana.

A emergência do self na perspectiva psicanalítica de Winnicott

Como veremos a seguir, Winnicott, ao analisar o desenvolvimento primitivo do bebê, considera fundamental o encontro entre o mundo interno do bebê e o mundo externo, mediado pela figura materna, num contexto que ele denomina de ilusão. O fenômeno da ilusão faz com que a criatividade originária do bebê (ou do paciente) coincida com a percepção objetiva, num encontro entre objeto da realidade e objeto subjetivo. Safra denomina esta experiência como uma situação de qualidade estética, através da qual “o indivíduo cria umas formas imagéticas, sensoriais, que veiculam sensações de agrado, encanto, temor, horror, etc...”.[36] Na presença de um outro significativo (figura materna ou analista), essa experiência faz com que o self se constitua, permitindo que a pessoa possa existir no mundo. Para que o eu possa se constituir e se tornar apto ao encontro com o não-eu (mundo externo), é necessária a mediação de uma mãe suficientemente boa, capaz de oferecer o mundo externo ao bebê, na medida em que o bebê se torna capaz de contê-lo, ou melhor, para usarmos a terminologia winnicottiana, de criá-lo.
O bebê nasce, na concepção winnicottiana, com uma estrutura sélfica que é pura potencialidade, uma tendência à integração, mas para que essa tendência se realize é fundamental a presença de um ambiente favorável.[37] Em “Desenvolvimento emocional primitivo” (1945), Winnicott se pergunta em que época começam a ocorrer coisas importantes para a formação do bebê. Embora não descarte a possibilidade que existam fatores importantes desde a concepção do bebê, ele acredita que, de fato, podemos inferir a primeira experiência importante somente a partir do nascimento, considerando as diferenças existentes entre bebês prematuros e bebês pós-maduros. É “ao final dos nove meses de gestação, [que] o bebê se torna maduro para o desenvolvimento emocional”.[38] O desenvolvimento primitivo do bebê, na fase inicial, até os cinco meses, “é vitalmente importante: (...) aí se encontra o esclarecimento na psicopatologia da psicose”.[39
Inicialmente, o ser humano parte de um estado de não integração (no integration): não conhece o ambiente, não tem noção de tempo e espaço e não tem a noção do eu.[40] Trata-se de uma “capacidade inata que todo ser humano tem de se tornar não-integrado, despersonalizado e de sentir que o mundo é irreal”.[41] Nesta fase, corpo e psique ainda não se integraram, o corpo é percebido como externo.[42] A não-integração produz uma série de fenômenos de dissociação, que, no bebê, são absolutamente normais, fazendo com que ele não identifique uma continuidade entre o bebê que dorme e o bebê acordado, entre a mãe que cuida e mãe, cujo poder, que está por trás dos seios, ele quer destruir.[43] A tendência a se integrar é ajudada por dois conjuntos de experiências: os cuidados maternos, que se concretizam nas experiências que envolvem a manipulação do bebê (handling) e a sua sustentação/contenção (holding), e também nas “experiências pulsionais agudas, que tendem a tornar a personalidade uma a partir do interior”.[44]
Para Winnicott, a psique individual só pode ter início num determinado setting, a partir do qual o indivíduo pode criar um meio ambiente pessoal, que, sucessivamente, se tudo correr bem, se transforma em algo semelhante ao meio ambiente percebido e, desta forma, o indivíduo passa da dependência à independência.[45] Nesta fase, se o meio-ambiente for invasivo, ou seja, se não houver uma adaptação ativa do meio às necessidades da criança, ocorre “uma distorção psicótica da organização meio-ambiente indivíduo” e uma perda de sentido de self, que só é recuperado por um retorno ao isolamento.[46] Naturalmente, para que se instaure uma organização defensiva como repúdio à invasão ambiental, é necessária uma seqüência de experiências percebidas pelo bebê como invasivas. No caso do processo de adaptação ser bem sucedido, observa Winnicott, o bebê começa a ter alguma noção de tempo, por começar a lidar com experiências em que o ambiente externo é experimentado de forma processual, numa seqüência de eventos.[47]
Gostaria de esclarecer que, no decorrer de nosso estudo, vamos falar freqüentemente de cuidados maternos e de mãe; Winnicott acredita de fato que a figura materna (ou de alguém que a represente de forma estável e consistente) seja fundamental nesse processo, cabendo ao pai a função de garantir a qualidade do setting que envolve inclusive a mãe. Acredito, contudo, que o cuidado materno possa incluir os cuidados do pai, exercendo neste caso a função materna. Desde que se trate de uma experiência agradável não invasiva para o bebê, nada muda com relação à teoria de Winnicott, embora ele observe que o processo “fica imensamente simplificado, se apenas uma pessoa cuida do bebê, usando apenas uma técnica” (cf. “Desenvolvimento emocional primitivo”, p. 279).

Potencial criativo e elemento feminino na constituição do self

Na teoria winnicottiana fruto de longos anos de consultório e de contato com pacientes adultos e crianças, inclusive psicóticos, alguns conceitos adquirem particular importância no processo de formação do self. Trata-se das noções de primeira mamata teórica, criatividade, elemento feminino e elemento masculino, experiência da ilusão e objeto transicional. Gostaria de abordar de maneira resumida esses conceitos para compreender como eles se articulam na formação do self.

A primeira alimentação teórica e a experiência da ilusão

A primeira alimentação teórica é uma experiência que surge a partir de uma necessidade do bebê (Winnicott prefere usar o termo necessidade ao termo impulso), que gera nele um estado de prontidão, ligado à sua criatividade primária, predispondo-o à alucinação. Uma mãe devotada,[48] a partir de seu amor e de sua profunda identificação com o bebê (e isto é favorecido por um setting adequado), ao fornecer algo que o bebê espera, na hora certa, favorece a experiência da ilusão. A mãe, portanto, exerce a tarefa de proteger o bebê em relação ao mundo externo, fornecendo “o pedacinho simplificado de mundo que a criança, através dela, passa a conhecer”.[49] O momento da ilusão é “uma experiência que o bebê pode tomar, ou como alucinação sua, ou como algo que pertence á realidade externa”.[50] No estado mais primitivo, “o objeto se comporta de acordo com as leis mágicas, isto é, existe quando é desejado” e desaparece quando não é desejado. Podemos dizer, portanto, que tudo o que é objetivamente percebido foi antes subjetivamente concebido no espaço da ilusão.[51] Trata-se de um paradoxo, o bebê cria o objeto, mas este não teria sido criado como tal se já não se encontrasse ali, graças a uma provisão ambiental suficientemente boa. Para entendermos o que isto significa, é necessário aprofundar o conceito de criatividade.

Criatividade, elementos masculinos e elementos femininos, importância do brincar

A criatividade, na perspectiva winnicottiana, está relacionada “com a abordagem do indivíduo à realidade externa” e é definida pelo ingresso criativo do indivíduo na vida, ligado à primeira abordagem criativa dos objetos externos.[52] Podemos portanto falar de uma criatividade primária, cujo desenvolvimento depende do meio-ambiente. Winnicott estabelece uma diferença nas relações de objeto, caracterizada por um relacionamento que transita entre os elementos masculinos e femininos, entre o relacionamento ativo e o relacionamento passivo. Isto vai nos ajudar a perceber em que sentido é fundamental para o desenvolvimento do self a experiência da criatividade originária. Na sua relação com o seio materno, o bebê transita entre duas experiências, uma ligada ao impulso instintivo que o leva a satisfazer sua necessidade, e outra ligada ao próprio seio, que possibilita ao bebê de “tornar-se o próprio seio (ou a mãe), no sentido que o objeto é o sujeito”.[53] A criatividade é exercida no âmbito dos elementos femininos, na criação do objeto subjetivo, que é o objeto que ainda não foi repudiado como um fenômeno não-eu.
Aqui, nesse relacionamento do elemento feminino puro com o ‘seio’, encontra-se uma aplicação prática do objeto subjetivo, e a experiência a esse respeito abre caminho para o sujeito objetivo [o grifo é meu], isto é, a idéia de um eu (self) e a sensação de real que se origina do sentimento de possuir uma identidade.[54]
Portanto o sentimento de eu, o self, cresce somente na medida em que é experimentado um relacionamento baseado no sentimento de ser, baseado numa identificação primária em que objeto e sujeito são um. “Tanto a identificação projetiva quanto a introjetiva originam-se dessa área em que cada um é o mesmo que o outro” e é a partir dessa relação de objeto do elemento feminino puro que se estabelece a experiência de ser. [55] “Em contraste, a relação de objeto do elemento masculino com o objeto pressupõe uma separação” que marca o surgir do objeto não-eu, do objeto objetivado, uma relação que já supõe uma organização mental mais estruturada.[56] A relação de objeto baseada no elemento feminino é focalizada no ser, aquela baseada no elemento masculino, no fazer. Evidentemente, nesta perspectiva, os elementos masculinos e femininos estão presentes tanto nos homens como nas mulheres. Evidentemente, uma mãe ansiosa, preocupada em “fazer” suas obrigações maternas, corre o risco de não possibilitar ao bebê esse encontro com o próprio ser, que o constitui como self.
Na experiência da criatividade e na constituição do self, adquire particular importância o brincar. De fato é no brincar que o indivíduo pode ser criativo e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self).[57] Neste sentido, Winnicott exclui que o self possa ser encontrado de outra forma.
O eu (self) realmente não pode ser encontrado no que é construído com produtos do corpo ou da mente, por valiosas que essas construções possam ser em termos de beleza, perícia e impacto. Se o artista, através de qualquer forma de expressão está buscando o eu (self), então pode-se dizer que, com todas a [sic] probabilidade, já existe um certo fracasso para esse artista no campo do viver criativo. A criação acabada nunca remedia a falta subjacente do sentimento do eu (self).[58]
Para Winnicott a experiência do brincar não pertence só à criança, mas está ligada a qualquer atividade em que a criatividade primaria busca expressão, inclusive na análise.
"(...) o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar produz os relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente a psicanálise foi desenvolvida como uma forma altamente especializada de brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros. "[59]
Para que o brincar aconteça é necessário um espaço potencial entre o bebê e a mãe (ou o paciente e o analista), um espaço que se situa entre o mundo interno e o mundo externo;[60] somente neste espaço é possível experimentar a amorfia, uma experiência que remete “a um estado não-intencional, uma espécie de tiquetaquear (...) da personalidade não integrada”.[61] No brincar, o mundo pode ser construído e destruído, pois envolve o mundo interno e externo e os funde. Mais uma vez, contudo, é necessária a experiência de um meio-ambiente adequado, suficientemente bom, para que possa acontecer uma forma de comunicação criativa que constitui a experiência do self.[62]

Espaço potencial e objetos transicionais

É no espaço potencial da ilusão que se articulam as experiências com os objetos transicionais. O objeto transicional situa-se numa área intermediária de experimentação entre o objeto subjetivo e aquilo que é objetivamente percebido.[63] Não é raro perceber a importância desses objetos transicionais (um ursinho de pelúcia, uma fraldinha, um cobertor, etc.) nos primeiros anos de vida da criança. De acordo com as observações de Winnicott, o padrão dos fenômenos transicionais começa a surgir dos quatro aos doze meses de idade. Este padrão, estabelecido na tenra infância, pode persistir no decorrer da infância, de maneira que a criança continua a precisar de um determinado objeto (geralmente macio), para acalmar sua ansiedade. Aos poucos, na medida em que o bebê começa a dominar os sons, esse objeto adquire um “nome”, freqüentemente significativo, pois está de alguma forma relacionado ao mundo adulto. No entanto, Winnicott alerta que, em determinados casos, pode não existir um objeto transicional à exceção da própria mãe.[64]
O objeto transicional é importante porque representa, na mente da criança, o objeto da primeira relação (geralmente o seio materno). A relação com esse objeto é uma fase intermediária, que precede o teste da realidade, pois nela, o bebê passa do controle onipotente (mágico) do objeto subjetivo para uma forma de controle que envolve a manipulação. O objeto transicional supõe um setting específico, a área da ilusão, uma área que se situa “entre a criatividade primária e a percepção objetiva baseada no teste da realidade”.[65] Neste sentido os fenômenos transicionais “representam os primeiros estádios do uso da ilusão, sem os quais não existe, para o ser humano, significado na idéia de uma relação com um objeto que é por outros percebido como externo a esse ser”.[66] Trata-se de objetos que se situam numa área neutra de experimentação, onde mundo interno e mundo externo se sobrepõem. Uma fase necessária para que possa acontecer a passagem para a desilusão, uma experiência geralmente associada ao desmame. Desta forma, como diz Winnicott; “o palco está pronto para as frustrações” e para a aceitação da realidade.[67]

Novidade da teoria de Winnicott

A teoria do desenvolvimento de Winnicott introduz um elemento novo em relação aos desenvolvimentos anteriores da teoria psicanalítica, inclusive da própria teoria kleiniana, da qual ele depende. Para Klein, os objetos internos vão se constituindo gradativamente através dos movimentos pulsionais do bebê, que começa a interagir com a realidade externa, num processo de projeção e introjeção (pulsão oral e anal). Para Klein, contudo, o acento cai sobre o mundo interno do bebê, restando ao mundo externo apenas confirmar ou contradizer suas fantasias internas que se originam a partir dos instintos (pulsão de morte e de vida). Para ela, o equilíbrio depende muito mais de uma capacidade inata do bebê de integrar os dois movimentos pulsionais, levando-o a se equilibrar gradativamente entre posição esquizo-paranóide e posição depressiva, num movimento que envolve, inicialmente, agressão ao objeto percebido como cindido, e, num estágio de desenvolvimento sucessivo, quando o objeto pode ser percebido em sua totalidade, culpa e reparação.Winnicott, embora assuma vários elementos da teoria kleiniana, discorda abertamente da tese do inatismo e não aceita o conceito de pulsão de morte.
"Segundo meu ponto de vista, tanto Freud como Klein desviaram-se (...) e refugiaram-se na hereditariedade. O conceito de instinto de morte poderia ser descrito como uma reafirmação do princípio do pecado original. Já tentei desenvolver o tema de que tanto Freud quanto Klein evitaram, assim procedendo, a implicação plena da dependência e, portanto, do fator ambiental. Se a dependência realmente significa dependência, então a história de um bebê individualmente não pode ser escrita apenas [o grifo é meu] em termos do bebê. Tem de ser escrita também [o grifo é meu] em termos da provisão ambiental."[68]
Portanto, mesmo mantendo o conceito de fantasia e de objeto interno, Winnicott introduz a idéia de que há um enriquecimento do mundo interno a partir do mundo externo e isto permite ao indivíduo enfrentar o imenso choque da perda da onipotência. A respeito da fantasia, ele observa que não é algo que o indivíduo cria para lidar com as frustrações da realidade externa, a fantasia é “mais primária que a realidade e o enriquecimento da fantasia com as experiências do mundo depende da experiência da ilusão”.[69] No entanto, para que a ilusão se produza “é necessário que um ser humano se dê ao trabalho de trazer o tempo todo o mundo até o bebê, de forma compreensiva e de maneira limitada”.[70] Desta forma, o objeto subjetivo, criado pela atividade alucinatória do bebê, passa a se relacionar gradativamente a objetos objetivamente percebidos, mas sempre a partir de uma provisão ambiental suficientemente boa. “Não há possibilidade alguma de um bebê progredir do princípio de prazer para o princípio de realidade ou no sentido, e para além dela, da identificação primária [e aqui Winnicott se refere explicitamente à teoria freudiana da obra Ego e id] a menos que exista uma mãe suficientemente boa”.[71] Uma mãe é boa na medida em que é capaz de se adaptar ativamente ás necessidades do bebê, reduzindo gradativamente esta capacidade à medida que o bebê se torna capaz de tolerar a frustração.

Conclusão

A partir das considerações feitas até aqui, podemos agora abordar as questões apresentadas no início do nosso estudo. Em primeiro lugar, nos perguntávamos se o self é construído de fora para dentro, ou se é construído de dentro para fora. Jung chama a atenção para o valor individualizador, por assim dizer, do self, pois é a partir do self que o processo de individuação acontece, mas, ao mesmo tempo, ele estabelece uma ponte entre o si-mesmo e o universal, o coletivo. Seu conceito de universal, contudo, não está relacionado ao mundo externo e aos seus padrões morais, ideais e leis gerais, rejeitados pelo homem contemporâneo como cálices amargos, fonte de exclusão e de discriminação, como faz notar Taylor. Por estar ligado à concepção de inconsciente coletivo, o self junguiano nada tem a ver com esses referenciais que apontam para um ser humano ideal, ora a partir de uma pretensa possibilidade de perscrutar a essência do ser e as leis universais de origem divina; ora duvidando dessa possibilidade, mas acreditando numa idéia de homem que vai se formando ao longo dos séculos, e que, por sua vez, é construtora da consciência humana; ou, de um homem que se faz a partir da história; ou ainda de um homem que se faz a partir das próprias estruturas da linguagem. O conceito de inconsciente coletivo traz uma instância nova, que supera a consciência limitada do eu. O self seria, neste sentido, um portal que abre a consciência sobre um universo Inconsciente inexplorado, no qual os opostos se unem e o indivíduo se percebe como único e, ao mesmo tempo, como parte de uma energia vital poderosa.
A visão junguiana nos permite postular a existência de uma instância psíquica que faz a ponte entre o interno e o externo, entre o mundo da consciência e o inconsciente, tendendo à integração de elementos inicialmente dissociados no âmbito psíquico individual. Neste sentido, ele recupera o sentido dialógico do self analisado por James e Wiley, que por sua vez retoma Pierce e Mead. Este núcleo psíquico, contudo, não condena o homem ao individualismo, pois ele está estritamente relacionado com uma dimensão mais ampla, coletiva e, de certa forma universal. Trata-se de uma identidade que nada tem a ver com padrões morais, mas relacionada a algo mais profundo, mais essencial, ao qual os padrões morais também estão submetidos. Poderíamos chamar isso de natureza humana? O termo está sem dúvida desgastado por séculos de contendas filosóficas. Talvez possamos falar num núcleo vital primário, inconsciente, que de vez em quando atinge a consciência e se expressa em formas culturais definidas, na linguagem, na história e em sistemas éticos determinados.
O self seria portanto o elo que introduz o indivíduo nessa experiência vital, fazendo com que ele se perceba como existente e não apenas existido, vivo e não apenas vivido, por alguém ou por algo externo a ele. Nesse sentido, a contribuição de Winnicott é fundamental para perceber a maneira como o self se constitui. O ser humano só pode chegar a ser ele mesmo, a partir de um olhar, de um outro, que possa espelhar sua criatividade primária, num outro que o ajude a perceber que ele existe, no sentido literal da palavra (emergir do ser). Sem fazer a experiência de poder criar o ser, o homem não passa a existir como indivíduo. Ele poderá ser existido, desenvolvendo aquilo que Winnicott e outros definem como falso self, sendo um espectral, como diria Safra. Podemos nos arriscar a dizer que uma verdadeira moral deve aproximar o ser humano dessa experiência primária e não apenas se tornar um código (no sentido usado hoje pela informática), uma programação para executar uma tarefa no mundo. Uma moral verdadeira deve pôr o ser em contato com a possibilidade de criar a partir do que já foi criado pela história humana, no decorrer dos séculos. Esta primeira abordagem permite a sucessiva, que supõe a frustração e a adaptação. Neste caso, porem, a adaptação não é uma experiência de self alienado, mas pode se tornar uma experiência de realização do self, que, como Jung dizia, uma vez que se reconhece, pode até renunciar a si mesmo.
Como parece insinuar Freud, podemos ainda conceber o self como uma parte específica da mente, caracterizada por atributos e funções especiais. Além de permitir uma ponte entre consciente e inconsciente, uma função importante do self é estabelecer a continuidade temporal, que garante ao indivíduo a unidade para além da fragmentação do espaço e do tempo. Como esclareceu Wiley, esta função se estende à possibilidade do ser humano se relacionar com a atividade simbólica, integrando em si o objeto, o significado e o próprio intérprete.
Nos perguntávamos no início deste trabalho se o self tem algo a ver com o caráter, com a personalidade moral de um indivíduo. De certa forma diria que sim, pois o self é a maneira única de uma pessoa existir no mundo. Inclusive uma maneira criativa de abordar as instâncias morais, no emergir da estrutura superegóica. Isto evidentemente supõe uma capacidade por parte do self de fazer a ponte entre consciente e inconsciente, de entrar em contato com os conteúdos internos e de elaborá-los, numa compreensão sempre nova, numa capacidade paradoxal de integrar elementos opostos: instintos de vida e de morte, desejos inconscientes e instâncias da realidade, objetos internos e objetos externos, as fantasias internas e a ambígua opacidade da realidade externa. Este, diga-se de passagem, é, a meu ver, o papel da análise hoje. Contudo, não quero dizer simplesmente que a pessoa se constitui a partir de normas e leis morais externas. A identidade pessoal é muito mais do que isso. Uma relação sélfica com o meio-ambiente é muito mais complexa. Como frisa Winnicott, ela surge de uma criação original, inicialmente a partir da alucinação e, depois, de um brincar com a matéria amorfa, num emergir criativo de objetos internos, subjetivamente criados e, aos poucos, descobertos, na relação com o meio-ambiente, em sua consistência objetiva de objetos não-eu. E aqui entra um elemento importante. A identidade pessoal do self se constrói na relação. Não numa relação abstrata com o meio-ambiente, mas numa relação pessoal, marcada pelo amor, pela capacidade do meio-ambiente conter o sujeito e interagir com ele de forma adequada, no respeito de sua criatividade originária e única. Um meio-ambiente que não seja invasivo, que saiba respeitar o devaneio e o brincar. Podemos vislumbrar nisso não apenas uma indicação pediátrica para as futuras mães, mas também um padrão educativo que deve continuar na escola, chegando a informar as relações de trabalho e as relações entre os vários grupos sociais, étnicos e religiosos. Utopia? Poderia tratar-se de uma utopia se estivéssemos falando de algo abstrato, no entanto, estamos falando do ser humano em sua concretude, estamos falando da possibilidade do homem se tornar humano.
Winnicott postula um ambiente suficientemente bom, para que o self possa se constituir. Percebemos pelas análises de Harvey e Rosen que o nosso ambiente está longe de ser suficientemente bom. Ele é invasivo, ameaçador, priva o homem do seu desejo e o joga numa situação de no sense, de esvaziamento de sentido, de não realidade, situações que Gilberto Safra descreve com pertinência a partir de sua experiência clínica. Cabe a pergunta se, para uma mãe que vive neste contexto, permanentemente invadida pelo mundo externo, ainda é possível efetuar a mediação, ser continente, controlando o estresse e a ansiedade. Dito de outra forma, num mundo onde tendem a se impor padrões de comportamento cada vez mais psicóticos (uso este termo levando em conta a perda da dimensão de realidade que está envolvida nos fenômenos acima analisados), o ambiente, e em particular quem exerce a função materna, risca de não poder proporcionar ao self em construção um habitat adequado e “suficientemente” bom. O resultado é a construção do falso self, que, ao multiplicar-se, cria um inferno dantesco, onde a humanidade está em busca de algo que parece estar irremediavelmente perdido no faiscar dos anúncios publicitários, nos estereótipos de comportamento, no ir e voltar caótico e sem sentido do trânsito, no pulsar dos bits e na perda de sentido dos bytes. Parafraseando Dante Alighieri, o nosso destino parece ser caminhar nessa imensa selva obscura, dominada pelo fantasma da violência, onde o caminho (do self) foi perdido.

Notas
[1] C. TAYLOR, As fontes do self, Loyola, S. Paulo, 1997.
  [4] Citado no verbete “Self” de J. MIELDS in Dicionário de Psicologia, Vol. 3, Loyola, São Paulo, 1982, p. 290.
href="/psicanalise/self-winnicott_ftn5"
[6] Id., Ibid., pp. 223-224.
 [7] Ao fazer um breve apanhado sobre o conceito de self em Jung, Winnicott indica, como uma das melhores contribuições sobre o tema, o artigo de M. FORDHAM, “The empirical foundation and theories of the self in Jung´s work” in Journal of Analytic Psychology (1963), 8 (cf. Explorações psicanalítica, Artes Médicas, Porto Alegre, 1994, p.370).
[8] Para este conceito nos referimos ao verbete “Se” [si-mesmo] in P. F. PIERI, Dizionario junghiano, Bollati Boringhieri, Torino, 1998, pp. 6511-657 (obra traduzida pela editora Paulus). Na exposição do conceito junguiano de self, uso o termo si-mesmo que é usado na tradução das obras de Jung em português para indicar o self.
[9] O conceito de superego como lei geral pode parecer um tanto estranho para um psicanalista, pois para Freud o superego não se identifica pura e simplesmente com a lei e com as normas culturais, mas é uma instância psíquica, derivada de uma interiorização das figuras paternas e, portanto, carregada de elementos inconscientes. Um texto de Jung citado no verbete mostra, a meu ver, uma compreensão do superego que não era exatamente aquela freudiana. Referindo–se ao fato do ego estar subordinado a instâncias superiores ele observa: “Tais instâncias não são eo ipso equiparáveis a uma consciência moral coletiva como Freud queria com o seu superego, e sim condições psíquicas a priori do homem, não empiricamente adquiridas” (p. 653). A tradução dos textos citados é minha.
[10] Cf. “Introdução do editor inglês” (S. FREUD, “Ego e Id” in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIX, Imago, Rio de Janeiro, 1996, pp. 19-20).
[11] As considerações a seguir foram extraídas do verbete “Se” in Dizionario di psichiatria, Astrolabio, Roma, 1979, p.686.
[12] H. KOHUT, Análise do self, Imago, Rio de Janeiro, 1988, p. 14.
[13] Id. Ibid., p. 14.
[14] Id. Ibid., p. 14.
[15] Id. Ibid., p. 14.
[16] Id. Ibid., p. 14.
[17] Cf. Id. Ibid., p. 108. Na realidade este é um conceito que Kohut pega emprestado de Hartmann (Ego, Psychology and the problem of adaptation, International University Press, Nova Iorque, 1958 e “On rational and irrational action” in Essays on Ego Psychology, International University Press, Nova Iorque, 1964, pp. 37-68).
[18] O texto citado em Dizionario di psichiatria foi extraído da obra de J. A. GEDO & A. GOLDBERG, Modelli della m ente, Astrolabio, Roma, 1975.
[19] Cf. o verbete “Se” in Dizionario di psichiatria, Astrolabio, Roma, 1979, p. 687.
[20] Esta é também a opinião de Winnicott (cf. Explorações psicanalítica, Artes Médicas, Porto Alegre, 1994, p.371).
[21] D. HARVEY, Condição pós-moderna, Loyola, São Paulo, 1992, p. 293. Apesar de ter sido publicada em 1989, esta obra tornou-se um ponto de referência que me parece ainda válido para a compreensão da situação psíquica do homem contemporâneo.
[22] Harvey cita, a título de exemplo, os sistemas de entrega just-in-time, voltados para a redução de estoques, uma tendência que as novas tecnologias de informação e o comércio eletrônico equacionam com a personalização do atendimento, centrada nas práticas do Customer Relationship Management (CRM), associada à Total Quality Management.
[23] Id., Ibid., p. 257.
[24] Cf., por exemplo, o capítulo “A indústria cultural: o esclarecimento como mistifiação das massas ” in T. ADORNO & M. HORKHEIMER, Dialética do esclarecimento, Zahar, Rio de Janeiro, 1985, pp. 112-156.
[25] Sobre este tema cf. o meu ensaio “O esvaziamento dos símbolos” (publicado no meu site: http://sites.uol.com.br/rgirola).
[26] A este respeito harvey remete aos trabalhos de Toffler e Simmel, sobre os impactos psicológicos da sobrecarga sensorial.
[27] Citado em D. HARVEY, Op. Cit., p. 56. A análise à qual Harvey remete é extraída do artigo de F. JAMESON, “Postmodernism, or the cultural logic of late capitalism” in New Left Revue (146), pp. 53-92.
[28] Citado em Id., Ibid., p. 56.
[29] Citado em Id., Ibid., p. 57.
[30] Citado em Id., Ibid., p. 57 e extraído da obra The Anti-Oedipus, p. 245.
[31] Cf. “Tecnologia cansa” in Veja (03/11/00, no 45), pp. 11-15.
[32] G. SAFRA, A face estética do self, Unimarcos Editora, São Paulo, 1999.
[33] Id., Ibid., p. 13.
[34] Id., Ibid., p. 14.
[35] Id., Ibid., p. 14.
[36] Id., Ibid., p. 20 (nota 3).
[37] “Percebemos a importância vital da provisão ambiental, especialmente no início mesmo da vida infantil do indivíduo” (Cf. D. W. WINNICOTT, “A criatividade e suas origens” in O brincar & a realidade, Imago, Rio de janeiro, 1975, p. 97).
[38] D. W. WINNICOTT, “Desenvolvimento emocional primitivo” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 273.
[39] Id., Ibid., p.274.
[40] “Postulamos uma não-integração primária” (cf. Id., Ibid., p.275). Esta tese é retomada mais tarde (1952), em “Psicose e cuidados maternos”, com outras palavras: “Inicialmente, o indivíduo não é a unidade” (cf. D. W. WINNICOTT, “Psicose e cuidados maternos” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 378).
[41] Id., Ibid., p.276.
[42] “Não importa para ele [o bebê] ser muitos pedaços ou um ser inteiro, viver no rosto da mãe [espelhado portanto] ou em seu próprio corpo, desde que, de tempos em tempos, ele se torne uno e sinta algo” (cf. Id., Ibid., p.276).
[43] Id., Ibid., p.277.
[44] Id., Ibid., p.276.
[45] Cf. D. W. WINNICOTT, “Psicose e cuidados maternos” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 379.
[46] Cf. Id., Ibid., p. 380.
[47] Neste sentido, parece-me que uma certa organização na determinação dos horários do bebê, por parte de quem exerce o cuidado materno, pode ser significativa, ajudando a tornar menos invasiva a apresentação do meio externo.
[48] Cf. Id., Ibid., p. 376.
[49] D. W. WINNICOTT, “Desenvolvimento emocional primitivo” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 280.
[50] D. W. WINNICOTT, “Observação de bebês em situação estabelecida” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 279.
[51]D. W. WINNICOTT, “Objetos transicionais e fenômenos transicionais” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 402.
[52] D. W. Winnicott, em O brincar & a realidade, Imago, Rio de Janeiro, 1975, pp. 98-99.
[53] Id., Ibid., p. 113.
[54] Id., Ibid., p. 114.
[55] Id., Ibid., p. 114.
[56] Id., Ibid., p. 115.
[57] D. W. Winnicott, em O brincar & a realidade, Imago, Rio de Janeiro, 1975, p. 80.
[58] Id., Ibid., p. 81.
[59] Id., Ibid., p. 63.
[60] Id., Ibid., p. 63.
[61] Cf. Id., Ibid., p. 54 e 81.
[62] Sobre o uso do brincar na clínica cf. Id., Ibid., pp. 83-93.
[63] As considerações a seguir foram extraídas do texto de 1951 “Objetos transicionais e fenômenos transicionais” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, pp. 389-408.
[64] Cf. Id., Ibid., p. 394.
[65] Cf. Id., Ibid., p. 402.
[66] Cf. Id., Ibid., p. 402.
[67] Cf. Id., Ibid., p. 404.
[68] D. W. Winnicott, em O brincar & a realidade, Imago, Rio de Janeiro, 1975, p. 102.
[69] Cf. D. W. WINNICOTT, “Desenvolvimento emocional primitivo” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 280.
[70] Id, Ibid., p. 280.
[71] D. W. WINNICOTT, “Observação de bebês em situação estabelecida” in Textos selecionados: da Pediatria à Psicanálise, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 151.

Fantasias (Klein)

A fantasia na perspectiva psicanalítica

© Roberto Girola (Novembro 2000)

Índice dos conteúdos

Introdução

A questão metodológica

Natureza e função da fantasia em M. Klein

Instintos, fantasia e mecanismos psíquicos (introjeção e projeção)

Fantasias, imagens da memória e realidade

 

Introduçâo

O conceito de fantasia inconsciente, como observa Anna Segal,[1] é essencial para a compreensão da teoria kleiniana sobre o desenvolvimento mental. De fato, “a natureza dessas fantasias inconscientes e o modo como elas estão relacionadas com a realidade externa” determinam o funcionamento psíquico do indivíduo.[2] No entanto, esta teoria gerou uma ampla polêmica no âmbito do pensamento psicanalítico, pois parecia ser contrária a alguns postulados da teoria freudiana. A polêmica acabou vertendo sobre o papel da fantasia em relação à inibição da sexualidade e à formação do caráter, contrapondo a visão mais ortodoxa de Anna Freud àquela de M. Klein.[3] Na realidade, por trás desta discussão está o fato do termo fantasia ser usado em sentido diferente. M. Klein elaborou o conceito de fantasia inconsciente (phantasia) constatando que, no funcionamento psíquico, as relações com os objetos externos são mediadas pelas fantasias inconscientes que dão origem aos objetos internos. Portanto, “relações e objetos, ou situações externas, não devem ser simplesmente traduzidas em relações internas”, [4] pois o objeto interno tem vida própria e não coincide com a realidade externa, apesar de estar com ela inter-relacionado.

Anna Freud, se referindo às fantasias conscientes, afirmava que as mesmas são conseqüência da inibição da sexualidade, concebendo o fantasia como uma atividade ligada a um funcionamento psíquico já estruturado em torno do Complexo de Édipo, ao passo que M. Klein, por relacionar a fantasia a processos psíquicos mais primitivos, anteriores à estruturação edípica, afirmava que a sua atividade causa a inibição da sexualidade.[5] A concepção kleiniana de fantasia, de fato, “pressupõe – desde os primeiros anos de vida – uma organização do ego muito maior do que o que foi usualmente postulado por Freud”.[6] A própria Melanie Klein afirma claramente: que “o ego existe e opera desde o nascimento e (...) tem uma importante tarefa de defender-se contra a ansiedade suscitada pela luta interna”.[7] Esta situação conflitual, presente desde o nascimento, desencadeia uma série de processos psíquicos, entre eles a introjeção, a projeção e a cisão. Pela introjeção “o mundo externo, seu impacto, as situações que o bebê atravessa e os objetos que ele encontra não são vivenciados apenas como externos, mas são levados para dentro, vindo a fazer parte de sua vida interior”.[8] A projeção, por sua vez, consiste na capacidade da criança “de atribuir a outras pessoas à sua volta sentimentos de diverso tipo, predominantemente o amor e o ódio”,[9] sentimentos que na realidade são dela, pois derivam da projeção de suas emoções nos outros, principalmente na mãe. Tais processos, afirma M. Klein, fazem parte das fantasias do bebê,[10] e levam á formação de um mundo interno que é parcialmente um reflexo do mundo externo. Neste sentido, os processos de introjeção e projeção contribuem para “a interação entre fatores internos e externos” e devem ser considerados como fantasias inconscientes.[11]

As observações clínicas na análise de crianças levam M. Klein a conceber um ego que, a partir do nascimento, é capaz de formar relações de objeto na fantasia e na realidade.[12] “Para Melanie Klein, os precursores do superego (que ela chamou ‘camadas mais profundas do inconsciente’) estavam sendo organizados desde o nascimento”.[13] Como ela mesmo afirma, nessas camadas, “o objeto não seria sentido como parte da mente, no sentido que aprendemos do superego, como a voz dos pais dentro da mente da pessoa. Este conceito de superego só seria encontrado nas camadas mais superficiais do inconsciente. No entanto, em camadas mais profundas o objeto interno é sentido como um ser físico, ou ainda uma multidão de seres, que com todas suas atividades amistosas e hostis, abriga[m]-se dentro do corpo da pessoa”.[14] Nesta perspectiva, o bebê passa a lidar com o impacto da realidade a partir do próprio momento do nascimento.[15]

O percurso teórico freudiano tem como pano de fundo uma rica experiência clínica, a partir da qual toda a construção da teoria psicanalítica vem se articulando num entrelaçar-se contínuo de novas questões. É basicamente a partir do estudo de pacientes neuróticos adultos, que Freud vai elaborando sua teoria do desenvolvimento psíquico, remontando até as fases iniciais da infância. Uma das teorias centrais do pensamento freudiano, o Complexo de Édipo, não foge deste percurso hermenêutico. Nesta perspectiva, “o complexo de Édipo revela sua importância como o fenômeno central do período sexual da primeira infância. Após isso, se efetua sua dissolução, ele sucumbe à regressão (...) e é seguido pelo período de latência”.[16] A maneira como esta fase fundamental da infância é vivida, em torno dos quatro cinco anos de idade, na perspectiva freudiana, torna-se estruturante para o funcionamento do psiquismo em suas fases sucessivas do desenvolvimento. No quadro do desenvolvimento freudiano, crianças pequenas não são analisáveis, pois seu psiquismo estaria ainda numa fase narcísica. Só mais tarde, a estruturação edípica possibilitaria a entrada na fase da latência e possibilitaria a seguir o desenvolvimento de relações de objeto, inclusive com o analista, numa interação adaptativa com o mundo externo, que adquire na fase genital seu pleno desenvolvimento.[17]

A teoria kleiniana parte da constatação que crianças, muito antes dos quatro ou cinco anos de idade, sofrem de fobias.[18] A criança desde os primeiros meses de vida demonstra estar à mercê de ansiedades persecutórias,[19] que encontram expressão nas fobias arcaicas.[20]

Isto supõe uma situação conflitual que antecipa o Complexo de Édipo para fases muito mais primitivas do desenvolvimento. Sem o Complexo de Édipo, de fato, não é possível nenhuma patologia estrutural, pois não haveria nada que impediria ao Id de se tornar consciente. Para M. Klein o que “proíbe” a manifestação do id é algo que pertence ao próprio impulso, algo que ela relaciona com um funcionamento psíquico interno ligado à pulsão de morte. É em busca de um representante psíquico inconsciente que possibilite as relações de objeto, que Klein acaba formulando a teoria das fantasias inconscientes.

 

  A questão metodológica

Diante do contexto polêmico em que estas teorias surgem, Susan Isaacs tenta esclarecer as teses kleinianas sobre a natureza e a função da fantasia no contexto dos processos mentais estudados pela Psicanálise e mostrar sua coerência no âmbito geral do pensamento freudiano.[21] Neste sentido, o tom do artigo é bastante peremptório. Para Isaacs, o trabalho clínico mostra com clareza que existem certos fenômenos mentais que implicam na atividade de fantasias inconscientes, desde os primeiros anos de vida, embora seja difícil estabelecer o conteúdo de tais fantasias. Isto supõe numa ampliação do conceito de fantasia, que pode ser esclarecido remontando às primeiras fases do desenvolvimento humano, durante os primeiro três anos de vida.

Diante do ceticismo quanto à possibilidade de compreender a vida psíquica nesta fase, a autora considera que o método da inferência permite o estudo desses fenômenos a partir da convergência de três fatores:

a) Relações entre fatos e teorias conhecidos do pensamento psicanalítico;

b) Evidências clínicas a partir da análise de adultos e crianças;

c) Observação não analítica do comportamento infantil.

 

Sabendo que está diante de questões polêmicas no contexto da Psicanálise, a autora dedica um atento exame à questão do método.

a) Recorrendo aos métodos de observação desenvolvidos na área comportamental, Isaacs considera que três técnicas possam ser aplicadas à clínica analítica:

a. Atenção aos pormenores, ou seja a observação minuciosa do comportamento do bebê e de suas reações, comparando os dados assim obtidos.

b. Observação do contexto que consiste em notar e registrar o contexto emocional e social dos dados observados no que diz respeito á manifestação de sintomas de ansiedade, júbilo, triunfo, afeição, aflição, etc. (cf. o exemplo do “fort / da”, observado por Freud na brincadeira de um bebê quando a mãe se afasta).

c. Estudo da continuidade genética, a partir do pressuposto que o desenvolvimento é um processo, embora não uniforme pois existem crises definidas de crescimento. Neste sentido, os processos mentais não podem ser considerados como fatos sui generis, mas como “itens numa série evolutiva ou seqüência”. Isto leva a crer que as fantasias sejam ativas com os impulsos de que elas surgiram.

 

b) O Método da Psicanálise

Os três aspectos acima citados, aplicáveis á observação do comportamento, representam para Isaacs aspectos essenciais do trabalho psicanalítico. A análise do contexto e a observação dos pormenores estão, no trabalho analítico intimamente ligados. O analista deve observar atentamente: repetições e omissões na fala, a ênfase dada aos diferentes momentos da fala, o contexto afetivo e associativo, o estilo verbal, a seleção de fatos, a maneira como o paciente entra e sai da análise, como se comporta no divã (tom de voz, cadência da fala, etc.), estados de humor e sintomas de afeição. O terceiro princípio está estritamente ligado á maneira como Freud descreve as sucessivas fases do desenvolvimento. Klein, observa Isaacs, transportou o mesmo método para o seu trabalho analítico com crianças, usando atividades lúdicas com objetos materiais como base de observação. “Nas relações da criança com o analista, tal como acontece com os adultos, as fantasias que se manifestaram em situações anteriores da vida são repetidas e representadas (...) com uma riqueza de vívidos pormenores”.[22]

A autora observa que é “especialmente na relação emocional do paciente com o analista que o estudo do contexto, dos pormenores e da continuidade do desenvolvimento demonstra ser fértil para a compreensão da fantasia”,[23] pois os pacientes repetem com o analista situações envolvendo afetos, impulsos e processos mentais de que tiveram experiência anteriormente em suas relações de objeto. A situação transferencial modifica-se de acordo com a personalidade, atitudes, intenções e até com as características externas e o sexo do analista e de acordo com as modificações da vida interior do paciente. Conclui portanto a autora que a “relação do paciente com o seu analista é quase inteiramente de fantasia inconsciente”.[24] Através da repetição e da representação é possível remontar a sentimentos, impulsos e atitudes dos primeiros meses de vida e adquirir assim “um sólido conhecimento do que realmente se passou na mente do analisando quando era criança pequena”.[25]

O método acima exposto usado para pacientes acima dos dois anos de vida permite, na opinião de Isaacs, inferir as fantasias mais remotas de crianças com menos de dois anos de vida, com um considerável grau de probabilidade, aplicando ao comportamento do bebê, os princípios de observação acima expostos e a compreensão obtida através da análise de adultos.

 

Natureza e função da fantasia

No contexto psicanalítico interessam especialmente as fantasias inconscientes. Isaacs observa que o fato de o termo fantasia ser usado, na linguagem comum, em contrapartida ao termo realidade, pode levar a negar a realidade objetiva da fantasia inconsciente como fato mental. O fato da fantasia não estar em sintonia com a realidade externa não quer dizer que ela não tenha uma realidade psíquica. Como frisa Segal, “a fantasia não é simplesmente uma fuga da realidade, mas um constante e inevitável acompanhamento de experiências reais, com as quais está em constante interação”.[26] O fato das fantasias inconscientes poder determinar o tipo de “seqüência casual atribuída aos acontecimentos”, demonstra que elas estão constantemente influenciando e alterando a percepção ou a interpretação da realidade, mas, por outro lado não podemos ignorar que também a realidade exerce o seu impacto sobre as fantasias inconscientes.[27] Para Segal o inter-relacionamento entre fantasia inconsciente e realidade externa é muito importante, pois permite avaliar a importância do ambiente no desenvolvimento da criança, uma tese que será sucessivamente desenvolvida com maior profundidade por Winnicot. Mas, ao mesmo tempo frisa algo que é típico da visão kleiniana, o fato da fantasia ter vida própria: “O ambiente tem (...) efeitos extremamente importantes na tenra infância e na infância posterior, mas daí não se conclui que, sem um ambiente mau, não existiriam fantasias e ansiedades agressivas e persecutórias”. [28] Isaacs observa ainda que, embora seja no contexto da patologia neurótica que a fantasia inconsciente revela todas sua força, ela não atua apenas neste contexto. Para Isaacs, o que define a normalidade é a maneira como a fantasia é tratada, trabalhada pelo processo mental e o grau de adaptação ao mundo externo.

No âmbito da teoria kleiniana, a fantasia é o conteúdo primário dos processos mentais inconscientes. Os processos mentais nascem do inconsciente, a partir das necessidades instintuais. As fantasias são portanto expressões mentais dos instintos, uma representação psíquica dos instintos libidinais e destrutivos. A atividade do fantasiar, como observa a própria M. Klein, tem suas raízes nas pulsões, da qual é um corolário.[29]

Interessante é a relação que Isaacs estabelece entre a alucinação e a fantasia inconsciente. A alucinação não apenas consiste em elaborar uma imagem interna do objeto desejado, mas em simular a obtenção do objeto desejado (em situações de tensão libidinal atenuada); neste sentido é um verdadeiro acting out (atuação) da fantasia. Com o aumento da tensão a alucinação tende a desaparecer, a intensidade do desejo aumenta com a dor da frustração e o objeto do desejo é introjetado mediante uma fantasia onipotente (incorporação do seio). Com o aumento da frustração a tensão instintiva já não pode mais ser negada. O objeto desejado assume um caráter persecutório e a agressividade se manifesta.

As fantasias têm um papel importante no desenvolvimento inicial. As dificuldades do bebê na alimentação e na excreção, ou as fobias, de fato, têm sua origem em fantasias inconscientes. O dor mental sempre implica uma fantasia. Quando a mãe some o bebê acha que foi destruída por sua agressividade e voracidade, numa atitude onipotente em que prevalece a interpretação subjetiva.

Inicialmente as fantasias relacionadas aos impulsos de desejo mais arcaicos são determinadas pela lógica da emoção, num período sucessivo de desenvolvimento, porém, podem ser expressas em palavras. No entanto, observa Isaacs, “na infância e na vida adulta (...) fantasiamos e atuamos muito além dos nossos significados verbais”.[30] “As palavras são meio de referência à experiência real ou fantasiada, mas não são idênticas e ela, nem a substituem”,[31] pois pertencem à atividade consciente. A prova mais convincente disso são os sintomas de conversão na histeria, em que fantasias (desejos e emoções, crenças) arcaicas se manifestam sob forma de uma regressão pré-verbal, através de sintomas físicos (sensações, posturas, gestos e processos viscerais). Embora a atividade simbólica consciente possa ter como base a fantasia, ela não se identifica com a fantasia e uma criança terá fantasias muito antes que possa expressá-las em palavras.

Para compreender o verdadeiro sentido da fantasia inconsciente kleiniana é importante retomar a relação entre fantasia e experiência sensorial. A primeira realização fantasiada de um desejo está vinculada à sensação. “As primeiras fantasias promanam de impulsos físicos e estão interligadas com sensações e afetos físicos”.[32] Isaacs frisa que as fantasias expressam inicialmente uma realidade interna e subjetiva, mas estão vinculadas com uma realidade concreta (objetiva). Na fase da amamentação, o bebê sente angústia por causa de estímulos internos (corporais, viscerais) e, em decorrência disto, pode sentir satisfação e afetos agradáveis, ou sentir uma frustração do seu desejo, sob forma de sensações e afetos desagradáveis e persecutórios, como se estivesse sendo agredido pelo objeto desejado. As primeiras experiências corporais estimulam as primeiras recordações e introjeções de realidades externas sob forma de fantasias. No entanto, as fantasias não têm origem no mundo externo, sua origem é essencialmente interna, nos impulsos instintivos. Portanto, não é necessário que a criança tenha visto objetos externos destruídos para que surja a fantasia de poder destruir o seio materno. Fantasias são inicialmente uma percepção primária dos impulsos derivados da pulsão de vida e de morte. Um exemplo disso são as fantasias ligadas às dificuldades no controle do esfíncter e na enurese. As fezes e a urina podem ser expressão de coisas boas que a criança quer dar á mãe como expressão de seu amor, algo que a mãe supostamente quer. Esta fantasia encontra um eco na realidade externa, quando a mãe as recebe positivamente. Mas as fezes podem também ser uma forma de agressão, relacionadas à fantasia de afogar, queimar na urina a mãe má (instintos de morte). A urina que queima é expressão da raiva impotente do bebê, de acordo com suas intenções no momento de evacuar, intenções que podem ser fixadas pela maneira agressiva de como a mãe as recebe. Estas fantasias estão ligadas às fantasias sexuais infantis, descritas por Freud, sobre a origem dos bebês e sobre a cena primária (o pai introduz na mãe comida ou fezes, boas ou más, conforme a ocasião e a natureza da fantasia interna da criança). As fantasias exprimem desejos e paixões, utilizando-se dos impulsos corporais do bebê como seu material de expressão.[33]

Isaacs faz notar a relação entre a fantasia inicial e o processo primário. As fantasias como interpretações afetivas das sensações corporais são caracterizadas pelas qualidades que Freud atribuiu ao processo primário: falta de coordenação, falta do sentido do tempo, de negação e de contradição, ou seja, elas ocorrem sem que haja discriminação da realidade externa (daí o prevalecer nesta fase da posição esquizo-paranóide). A mãe percebida como objeto interno mau, não implica num raciocínio, mas numa identificação entre a dor sentida e a mãe. A relação entre sensação interna e realidade externa começa a ser feita só mais tarde, perto dos 6 meses. Inicialmente, trata-se portanto de uma experiência “absoluta”, sem contato com a realidade externa. No entanto, este processo primário não domina “toda” a vida mental do bebê, pois, desde o nascimento, ocorrem adaptações ao meio externo e interações que modificam sua vida mental, num processo de integração que supõe memória e previsão. O brincar passa assim a ser uma forma adaptativa do bebê à realidade externa e um meio de expressão de suas fantasias.

 

Instintos, fantasia e mecanismos psíquicos (introjeção e projeção)

  Para esclarecer ainda mais o conceito de fantasia, Isaacs, estabelece uma relação entre instinto, fantasia e mecanismo, em particular entre as fantasias de incorporação e os mecanismos de introjeção. Projeção e introjeção são mecanismos mentais, ou seja “modos particulares de operação da vida mental, como um meio para enfrentar tensões e conflitos internos”.[34] Através desses mecanismos, idéias, impressões e influências penetram no ego e passam a integrá-lo, ou então, elementos do ego, deixam de ser reconhecidos como seus e são projetados no mundo externo. Tais mecanismos são relacionados com fantasias de incorporação de objetos amados e odiados. Para Isaacs “a fantasia é o vínculo operante entre o instinto e o mecanismo do ego”.[35] O instinto é caracterizado por um impulso motório dirigido para um objeto externo concreto, Seu representante mental é a fantasia. É através da fantasia (daquilo que preenche nossas necessidades) que o impulso instintivo pode se concretizar na realidade externa. “Embora sejam fenômenos psíquicos, as fantasias são, primariamente (...), dores e prazeres corporais, dirigidas a objetos”.[36] A fantasia, portanto, ”é uma invenção, uma vez que não pode ser tocada, agarrada ou vista; contudo, é real na experiência do sujeito”.[37] Nisto reside o paradoxo, a fantasia é uma função puramente mental e, no entanto, tem efeitos reais, com repercussões tanto internas como externas. Resumindo podemos dizer que os Instintos são: processos psicossomáticos dirigidos para objetos externos. As fantasias: são representantes psicossomáticos dos instintos (“expressão mental” de um instinto, como diria Freud). Elas permitem concretizar no mundo externo nossas necessidades instintivas mediante a “representação” fantasiada daquilo que preenche nossas necessidades. São uma invenção da mente, mas para o indivíduo representam uma experiência real subjetiva. Elas produzem no ego efeitos reais, emoções, comportamentos concretos em relação a outras pessoas; com repercussões no mundo externo, provocando mudanças que afetam o caráter e a personalidade, gerando sintomas, inibições, capacidades.

No mecanismo de introjeção a fantasia elabora uma imago interna de um objeto externo. Os dois passam a ser percebidos como distintos num lento processo de desenvolvimento, que Isaacs sintetiza nas seguintes fases:

a) Em seu estádio primitivo, as fantasias remetem a impulsos orais e motórios ligados à experiência de introduzir coisas.

b) Tais fantasias representam inicialmente uma experiência corporal pouco suscetível de ser relacionada com o objeto externo. Isto confere á fantasia uma qualidade concreta corporal (sentida no corpo, não distinguível de sensações externas).

c) Pouco a pouco, a separação entre mundo interno e esterno se torna mais clara. Nesta fase os impulsos corporais e sua expressão mental (fantasias) sofrem repressão. Os objetos externos são convertidos em imagens mentais de objetos externos percebidos com tais.

d) Tais imagens mentais, porém, podem passar a afetar a mente por estar nela, na medida em que se relacionam com as imagens internas (fantasias), suas associadas somáticas reprimidas e inconscientes, que constituem o elo com o id e que permitem “sentir” o objeto associado como incorporado.

Isaacs chama a atenção na distinção entre imago e imagem. A primeira refere-se a uma imagem inconsciente, a segunda à imagem mental de objetos externos. Na imagem os elementos somáticos e emocionais estão em grande parte reprimidos, ao passo que estão presentes na imago. Já os mecanismos estão relacionados com fantasias específicas e, portanto, são sempre experimentados como fantasias. Eles derivam “dos instintos e reações inatas de ordem corporal”.[38]

 Fantasias, imagens da memória e realidade

As fantasias participam do desenvolvimento inicial do ego em sua relação com a realidade. Elas impulsionam em direção à realidade externa, que por sua vez fornece material para a fantasia e a memória. Mais tarde, as percepções externas começam a influenciar os processos mentais. “No começo, a psique lida com a maioria dos estímulos externos (...) por meio dos mecanismos primitivos de introjeção e projeção”.[39] Na medida em que a realidade externa frustra o bebê, ela é odiada e rejeitada. Desta forma, pode ser investida pela libido e sucessivamente amada, compreendida e aprendida. Portanto, o desapontamento da satisfação alucinatória é o primeiro estímulo para a aceitação adaptativa da realidade. Contudo o adiamento da satisfação e a expectativa só podem ser suportados quando a realidade propicia uma satisfação dos impulsos instintivos. Tanto o pensamento de fantasia como o pensamento de realidade são modos distintos de obter satisfação, que supõem desejo, curiosidade e medo. No entanto, “o pensamento de realidade não pode operar sem a concorrência e apoio de fantasias inconscientes”.[40] Objetos que o bebê agarra e manipula estão investidos de libido oral. Se ele fosse inteiramente auto-erótico, como sustentava Freud nunca aprenderia coisa alguma, pois a preensão satisfaz desejos orais frustrados pelo seu objeto original.

M. Klein recorre ao conceito de identificação primária, definido por Ferenczi como o esforço do bebê para redescobrir em todos os objetos os seus próprios órgãos e seu funcionamento. Da mesma forma compartilha a opinião de E. Jones, para quem é o princípio de prazer que torna possível equacionar dois objetos separados, estabelecendo um vínculo afetivo. A função simbólica habilita a fantasia a ser elaborada pelo ego e permite às sublimações de se desenvolverem. É o processo de formação de símbolos que em grande parte libidiniza o mundo externo. São as fantasias que sustentam e promovem o interesse pelo mundo externo, facilitam a aprendizagem e fornecem a energia para organizar os conhecimentos. Tudo isto a partir de um processo que envolve controle, inibição e satisfação dos impulsos instintivos.

 

[1] A. SEGAL, Introdução à obra de Melanie Klein, Imago, Rio de Janeiro, 1975, p.22.

[2] Id, Ibid, p. 23.

[3] Cf. o interessante artigo de R. D. HINSHELWOOD, “O indefinível conceito de ‘objetos internos’, seu papel na formação do grupo kleiniano” in Livro anual de Psicanálise (1997), XIII, pp.205-224.

[4] Trata-se de uma anotação da própria M. Klein, citada em Id., Ibid., p. 213.

[5] O uso da atividade do fantasiar como parte de uma atividade egóica mais desenvolvida é assim descrita por Klein: “Quando a ansiedade e a culpa diminuem e o amor e o ódio podem ser mais bem [sic] sintetizados, os processos de cisão (...), bem como as repressões atenuam-se, enquanto o ego ganha em força e coesão; a clivagem entre objetos idealizados e persecutórios diminui; os aspectos fantasiosos dos objetos enfraquecem. Tudo isso implica que a vida de fantasia inconsciente (...) pode ser mais bem [sic] utilizada em atividades do ego, tendo como conseqüência um enriquecimento geral da personalidade” (Cf. “Nosso mundo adulto e suas raízes na infância “ in Inveja e Gratidão e outros trabalhos, Imago, Rio de Janeiro, 1991, p 79).

[6]A. SEGAL, Op. Cit., p 24.

[7] M. KLEIN, “Nosso mundo adulto e suas raízes na infância” in Op. Cit., Imago, Rio de Janeiro, 1991, p 283.

[8] Id., ibid., p. 284.

[9] Id., ibid., p. 284.

[10] Id., ibid., p. 284.

[11] Id., ibid., p. 284.

[12] A. SEGAL, Op. Cit., p 24.

[13] R. D. HINSHELWOOD, Op. Cit, p. 213.

[14]Citado em Id., Ibid., p. 212.

[15] Ou ante antes do nascimento, a partir da própria vida intra-uterina, como algumas teorias recentes parecem sugerir.

[16] S. FREUD, “A dissolução do Complexo de Édipo” in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIX, Imago, Rio de Janeiro, 1996, pp 193.

[17] “As catexias de objeto são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do pai ou dos pais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetua a proibição deste contra o incesto, defendendo assim o ego do retorno da catexia libidinal. As tendências libidinais pertencentes ao complexo de Édipo são em parte dessexualizadas e sublimadas (coisa que provavelmente acontece com toda transformação em uma identificação) e em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição” (Cf. Id, Ibid, pp 196).

[18] Afirma Klein: “Sustento (...) que ansiedades persecutórias e depressivas excessivas em bebês pequenos são de importância crucial na psicogênese das perturbações mentais” (Cf. o capítulo “Sobre a observação do comportamento de bebês” in Op. Cit., pp. 120-148).

[19] “Eu sugeriria que as fobias que surgem durante os primeiros meses de vida são causadas pela ansiedade persecutória, que perturba a relação com a mãe internalizada e com a externa” (M. KLEIN, “Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê” in Op. Cit., p. 130).

[20] Id,. Ibid., p. 106. Cf. também p. 290, onde as fobias são relacionadas à posição depressiva.

[21] Cf. S. ISAACS, “A natureza e a função da fantasia” in Os progressos da Psicanálise, pp. 79-135.

[22] Id., Ibid., p. 91.

[23] Id., Ibid., p. 91.

[24] Id., Ibid., p. 92.

[25] Id., Ibid., p. 92.

[26] A. SEGAL, Op. Cit., p. 25.

[27] Id., Ibid., pp. 25-26

[28] Id., Ibid., p. 26.

[29] Cf. M. KLEIN, “Influências mútuas no desenvolvimento do Ego e Id” in Op. Cit., p. 82 e p. 285.

[30] S. ISAACS, Op. Cit., p. 103.

[31] Id., Ibid., p. 103.

[32] Id., Ibid., p. 107.

[33] Cf. Id., Ibid., p 110.

[34] Id., Ibid., p. 113.

[35] Id., Ibid., p. 113.

[36] Id., Ibid., p. 114.

[37] Id., Ibid., p. 114.

[38] Id., Ibid., p. 121.

[39] Id., Ibid., p. 122.

[40]Id., Ibid., p. 124.

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Roberto Girola

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